The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“O senhor já devia saber”

De volta ao Porto por um ou dois dias, em parte para ver a caixa do correio que desta vez tinha quatro envelopes das Finanças. Só um susto passageiro: cada carta anulava outra, como se fossem parênteses ou aspas.

Tudo começou com um primeiro aviso, recebido há umas semanas, dizendo que já me tinham enviado três cartas (que não recebi) a avisarem-me do Imposto sobre Imóveis e que me iam penhorar o valor. Paguei na hora (segundo o Portal das Finanças, ainda tinha mais quinze dias para o fazer). Telefonei, só para ver se havia algum problema. Disseram-me que não. Queixei-me de não ter recebido nenhum aviso e de estar a pagar mais umas dezenas de Euros em juros de atraso por causa disso. Disseram-me que devia estar atento porque, mesmo sem carta, o pagamento é sempre nesta altura do ano. Respondi que era a segunda vez que estava a pagar o Imposto sobre Imóveis, não conheço os prazos e, sem aviso, também não sabia o valor.

Na semana passada, recebo uma carta a dizerem-me que tinham penhorado parte do meu reembolso fiscal. Esta semana recebo o tal monte de cartas, a dizer (respectivamente) que me iam devolver o dinheiro, que me tinham devolvido o dinheiro, qual o valor do IMI e qual o valor do IRS.

No fim, só me chateiam os juros de demora que paguei por não ter recebido as três cartas de aviso. Num sistema onde se mandam cartas por tudo e por nada, só não recebi as que mais interessavam e que me podiam ter poupado uns tostões. E é claro que para a funcionária que me atendeu a solução seria eu saber por minha iniciativa (sabe-se lá como) os prazos e os valores que me iam cobrar.

Numa sociedade  inclusiva, um simples cidadão não deveria ser obrigado a saber tanto ou mais do que os funcionários que o atendem numa qualquer instituição, seja ela as Finanças, um Centro de Saúde ou até um Transporte Público.

A sinalética do Metro, por exemplo, não é uma formalidade que se põe a contragosto nas estações, só porque tem que ser, mas é feita, não para quem usa o sistema diariamente, mas para quem está a usá-lo pela primeira ou segunda vez. No Metro do Porto, anuncia-se nos altifalantes que vai chegar ao Cais 1 o comboio tal. Mas qual é o Cais 1? Apenas uma plaquinha discreta o assinala. Vejam se a descobrem na imagem acima. Cliquem para ampliar.

Da mesma maneira, até há pouco tempo era fácil falhar a estação de saída na Linha Amarela porque o nome, colocado num canto em letras finas e mal espacejadas, não era legível (ou mesmo visível) em todas as carruagens. Agora, felizmente, já se acrescentaram mais umas placas – que não alinham bem pelo padrão dos azulejos, mas que já devem ter prevenido umas tantas viagens involuntárias. Calculo que se diga que a Arquitectura com A grande sai desvirtuada. Mas, se fosse tão boa como isso, não precisaria de tais retoques ou então assumiria que eles teriam que acontecer mais tarde ou mais cedo.

O sistema, ou se adapta às pessoas ou as pessoas se adaptam a ele. No segundo caso, a adaptação só vale a pena se melhorar a sociedade em geral e não apenas a vida de um funcionário ou de um arquitecto.

Numa sociedade inclusiva, claro está.

Anúncios

Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design

4 Responses

  1. Edgar diz:

    E ainda não aderiste às notificações electrónicas? 😉

  2. alexandrem diz:

    O pior é que as finanças não mandam cartas registadas com aviso de recepção, vale apenas a validação do carteiro como entregue na morada correcta, caso haja um erro pode dar origem a uma penhora ou multa, injusta. Na minha zona a entrega do correio em certos dias é feita por uma empresa ou pessoas contratadas que não pertencem à zona, logo não a conhecem bem, o que tem originado erros. Apesar das reclamações e até do desagrado dos poucos carteiros, a situação prevalece.

  3. pedro centeno diz:

    primeiro: a arquitectura, neste caso, é mesmo tão boa quanto isso.

    segundo: a sinalética pode ter saído desvirtuada por culpa de terceiros.

    terceiro: a relação entre as duas poderia ter sido melhor conseguida? Podia, mas a boa arquitectura sobrevive a estes contratempos, mas só o tempo poderá confirmar isso.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: