The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Novecentos

Cheguei ao artigo n° 900. O ritmo do blogue tem sido mais rápido, portanto não é ocasião para grande celebração, apenas para algum exame de consciência ou ponto da situação.

Ainda há uns dias admitia em conversa com amigos que já não me apetecia tanto escrever sobre design mas, mal disse isso, reparei que este é o sexto texto seguido que dedico ao assunto. Tenho preferido a intervenção política e as artes em geral. Se calhar o regresso ao design é culpa da silly season, que tende a secar as coisas sérias, deixando apenas as trivilialidades.

E, neste momento, o design é uma trivialidade. Nem todo, nem sempre, mas sobretudo o que aInda vai sendo noticiado. Quase tudo design de luxo, design gourmet, que ganha prémios, se calhar porque esses galardões premeiam quem ainda se pode dar ao luxo de os pagar (porque se tornou natural no design pagar para ser premiado).

Assim, enquanto se fala de austeridade, o design que vinga conta outra história, de luxo e exclusividade. Não se pode dizer sequer que seja um paradoxo. É a austeridade da maioria e sobretudo daquilo que é comum e público que paga a desigualdade crescente. Assim, não surpreende que enquanto o governo gaba a moralidade da poupança, a sua estratégia para a promoção do país seja a “trilogia de luxo Arte Contemporânea – Fado – Gastronomia”. Nem surpreende que esteja a dar certo: em empreendimentos de luxo como a Quinta do Lago, os super-ricos já desalojaram os simplesmente ricos.

O design (e as artes, e a arquitectura) são serviços, que têm como clientes quem os paga. Neste momento, não há dinheiro para o Estado Social, nem para celebrar a sociedade inclusiva e as instituições públicas. O que está a dar é promover o sucesso de empresas recém-privatizadas, não através de uma melhoria dos serviços ou de preços mais baratos, mas de novas sedes, novos logotipos e campanhas de charme azeiteiras (o barrete é amplo, mas assenta particularmente bem à PT).

O que está a dar é o design como pretexto para juntar dois ou três nomes consagrados, da política, das empresas e das artes. A iniciativa das cadeiras é o melhor exemplo, mas não o único. A escolha de Joana Vasconcelos para Veneza é a mesma coisa. O design (e o comissariado) resume-se ao arranjo modular de personalidades e celebridades (director + arquitecto + artista + etc.) Nem interessa muito o que se faz, nem onde, desde que se possa dizer que é “do Siza” ou “do Oliveira” ou “da Joana”.

(Não admira que a critica se torne pessoal, a roçar o insulto: afinal, trata-se de pessoas e currículos e não de obras.)

É um ambiente que lembra a estética Yuppie dos anos 80, o fascínio pelo dinheiro, o Greed is Good, o individualismo.

E, no reverso da medalha, temos o designer precário, sem qualquer tipo de direito, onde até ter um filho é um capricho. Cuja vida é uma enfiada de entrevistas de emprego alargadas (só para não lhes chamar estágios). E sim, há milhares de designers formados, mas todos eles teriam emprego se estivessem dispostos a pagar para isso, talvez em empresas que produzem design de luxo, e pagam para receber prémios.

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Filed under: Arquitectura, Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia, Estágios, Política, Prontuário da Crise

4 Responses

  1. Pode ser que ela esteja a dar à luz ao próximo gestor da PT?
    reghuiregiusgtirugtnlsçnbnithgthtjh
    older?

  2. [‘ao próximo’/’o próximo’hjgsrsgiu]

  3. […] de milionários. Não é contradição nenhuma. Nem chega a ser ironia. Apenas um bom exemplo do que se acha lá por cima que nos vai tirar da crise: produtos gurmê, de luxo, produzidos com toda a alegria por uma nova […]

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