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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Outras Modas

É habitual conhecermos certos lugares antes de os conhecermos realmente, porque os vemos em filmes, lemos em livros ou bandas desenhadas. Nova Iorque, Paris, Londres, Barcelona, Lisboa já são quase personagens, alegorias ou figuras de estilo. Algumas cidades especializam-se em simular outras, Nova Iorque e Chicago formam em combinação a ficcional Gotham City. Certas cidades do Canadá podem ser usadas como versões mais baratas de Nova Iorque. Borges admitia que as cidades europeias onde situava alguns dos seus contos não passavam de versões de Buenos Aires.

A ida a Mértola da semana passada lembrou-me que já a conhecia, não de um filme ou de um livro, mas das páginas de moda de um dos primeiros números da revista K, de há mais de vinte anos, o suficiente para reconhecer algumas daquelas ruas, pormenores das casas e das calçadas. Como podem umas páginas de moda ficarem assim tão firmes na memória?

É suposto a moda ser passageira, superficial e até um tanto embaraçosa. A fotografia de moda mais ainda, construindo sofisticação a partir de uma colagem de roupas, acessórios e corpos, também eles de certo modo acessórios, tudo bem identificado na ficha técnica, indicando o local onde podem ser comprados e por que preço (até às vezes os modelos).

A sequência da Kapa chamava-se Terra Prometida e juntava texto imagem numa narrativa, nem linear, nem definida, que nos fazia querer saber mais sobre aquelas pessoas. Não apenas por serem bonitas, mas porque se comportavam e riam como pessoas, numa paisagem que dava vontade também de conhecer.

Era moda e , como tal, estava firmemente ancorada aos tiques da época: imaginário rural, proletário, misturando modelos com crianças de caras sujas, de aldeia, em fotos a preto e branco, de nuvens bem carregadas de grão e caras tão contrastadas que olhos nariz e boca se tornavam traços, desenhos no meio daquela textura toda. Não andavam longe do cinema que Wenders, Botelho ou Costa faziam na altura, fotografado epicamente a preto e branco, com actores como Pedro Hestnes ou as irmãs Medeiros, de que estes modelos são apenas versões mais extremas e mudas.

Agora a fotografia de moda tem outros tiques, outras narrativas: a foto de rua, filtrada pelo instagram, etc. No futuro, estes novos formatos, já de si nostálgicos, grão sarapintado por computador a imitar a ideia de grãos passados, terão em cima novas camadas de nostalgia.

O preto e branco da Kapa já era também ele nostálgico, reforçado e contrastado pela quadricromia (como se vê pelo pormenor ampliado acima onde é possível perceber rastos de cor), uma recuperação da densidade do preto e branco quase puramente fotográfico da rotogravura, entretanto quase desaparecida.

É possível datar um livro de fotografia português pela qualidade do seu preto e branco, o granulado dos cinzentos, a solidez dos pretos dos anos cinquenta e sessenta, o preto pardo e frágil dos setenta e oitenta, a  densidade estilizada dos pretos nos noventa, em quadricromia, em duotone, sempre com uma orla discreta de cor.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Fotografia, História, nostalgia,

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