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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A leitura como pedagogia do design

Há uns anos li, salvo erro na New Yorker, um perfil biográfico do designer de tipos Mathew Carter, onde ele se espantava com a quantidade crescente de pessoas que encontrava, fora do design, que reconheciam o seu trabalho ou simplesmente sabiam o que era uma fonte. Carter atribuía isso ao facto de cada vez mais gente fazer o seu trabalho ao computador, escolhendo fontes nos menus de programas como o Word ou o Excel.

Contudo, este conhecimento básico ao nível da letra raramente se traduz em melhor design ao nível da página ou documento. Deste ponto de vista, estes programas são concebidos para facilitar a vida a quem escreve, não a quem lê: linhas demasiado compridas, quase sem margens, sem entrelinhamento ou então com demasiado entrelinhamento. Se o documento é impresso, o objectivo parece ser poupar papel; se é uma tese, o objectivo parece ser não poupar papel. Em qualquer dos casos, o que não se poupa é a paciência do leitor.

Robert Bringhurst dizia que se pode avaliar a qualidade de um regime político pelo comprimento da linha.* As ditaduras preferiam linhas de muitos caracteres (não é muito importante que as coisas sejam lidas, apenas que estejam escritas) enquanto as democracias preferem medidas de coluna mais estreitas (é mais importante o conforto de quem lê do que o conforto de quem escreve).

Ou seja, se já há alguma literacia tipográfica quanto à escolha das fontes, o mesmo não se verifica quanto à composição da página. Em grande medida isso acontece porque não se usam bem formatos básicos como o A4. Herbert Spencer, um fã desta proporção, usava uma coluna bastante estreita, deixando uma margem generosa que hoje parece um desperdício, mas que torna a leitura bastante ágil.**

Talvez a literacia do design melhore com a leitura de eBooks em plataformas como o Kindle, onde o leitor pode decidir o comprimento da linha, o tamanho dos caracteres, a largura da página ou o tom do papel. Ou seja, uma leitura confortável depende sobretudo das opções que toma – o que é talvez a melhor pedagogia possível. Não faças aos outros o que não gostas que façam a ti.

*Cito de memória. Não tenho o Elements of Typographic Style comigo.

** Ver a coluna de texto por baixo da minha mão na imagem acima.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Tipografia

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