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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mudar de Carro

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Para muita gente, a crise resume-se a ir menos ao restaurante e a adiar a mudança de carro, preferindo um modelo mais barato que o costume quando chega a ocasião. Um bom exemplo da tendência é José Manuel Fernandes:

“Para muitos cidadãos do Sul da Europa, não é fácil aceitar esta realidade depois de tantos anos de ilusão. Trocar o Audi ou o BMW por um utilitário, vender a casa de fim-de-semana, fazer férias mais económicas, desistir da assinatura de um canal Premium de televisão, tudo surge como uma intolerável austeridade. Um caminhar para trás.”

Ou então José António Saraiva:

“A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4; e assim sucessivamente. E só falo de carros caros pois é onde se pode poupar mais dinheiro.”

Ou Rui Ramos, no Expresso desta semana (sem link):

“O pior da crise já veio, mas para os 15% de desempregados. Os restantes pagam mais impostos e têm menos crédito. Mas vivem, por enquanto, num mundo de juros baixos e com a inflação a descer. A crer nas estatísticas, mudam menos de carro ou de casa, mas mantêm as demais despesas. Quando querem exibir prudência, falam em cortar nas férias ou nas idas ao restaurante. É significativo.”

E acrescenta:

“Não é o fim do mundo – é apenas o fim de uma ilusão. Cabe-lhes, agora, exigir condições para recuperarem, pelo próprio trabalho, a vida que a demagogia política lhes deu um dia para lhes tirar no outro. Entretanto, pensem nos 15%.”

Resumindo: esquecendo os desempregados (para outros fins que não sejam o de mau exemplo), até se vive bem por aqui. Até há “vida para lá da crise” (é este o título da crónica de Ramos). É uma maneira económica de resolver uma catástrofe: se esquecermos o que está a correr mal, até nem é uma catástrofe.

Mas, para quem ainda acredita em coisas como a igualdade social, não há (nem pode haver) vida para lá da crise – enquanto existirem desempregados, e enquanto estes forem tratados como danos colaterais de uma sociedade que acredita que crise é não mudar tantas vezes de carro como se gostaria.

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Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. O problema de ter uma BMW é a segurança tipo uma BMW mostra que vc tem dinheiro…. um carro barato simples vc se sente mais seguro…. é foda ter dinheiro….

  2. […] virtudes da pobreza, enquanto se associa ao luxo e à exclusividade – a austeridade como trocar menos de carro, etc. Há qualquer de fundamentalmente errado e injusto quando se fala de pobreza e empobrecimento […]

  3. […] aquela “teoria” que os portugueses eram piegas porque a crise no fundo era serem obrigados a não mudarem tanto de […]

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