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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Democracia e Design

Há muito boa gente por aí que acredita que a participação democrática se deve limitar a ir pôr, de vez em quando, o papelito na urna. Fora isso pode-se entrar para um partido ou um movimento cívico, mas em geral deve-se delegar a democracia nas instituições, no Governo, no Presidente e no Parlamento, que a exercem por nós. Se o fazem bem ou mal, podemos avaliá-lo nas eleições seguintes, votando talvez no outro grande partido. É especulação da minha parte, claro, mas faz sentido que os defensores deste modelo de participação democrática defendam também um modelo em que dois grandes partidos concorrem entre si (onde não há muito por onde escolher, não há necessidade de tomar grandes decisões. E tem-se, como é evidente, a vantagem da estabilidade).

Pessoalmente, não acredito nem um pouco nesta forma de praticar a democracia. Quando se diz, por exemplo, que a democracia é o governo por parte de quem tem a maioria dos votos, e que portanto a melhor estratégia é conseguir maiorias, que podem assim fazer o que lhes apetece durante os quatro ou cinco anos seguintes, esquece-se que há várias maneiras de definir a democracia como o governo da maioria, que isso pode querer dizer que não é o governo de quem teve mais votos, mas o governo onde o máximo número de pessoas pode participar.

Vendo a democracia deste modo inclusivo, não é difícil perceber que não são só os políticos, partidos ou assuntos mais votados que interessam, mas sobretudo a variedade de assuntos, identidades e problemas que podem ser trazidos ao debate.

Dois grandes partidos, por mais membros que tenham, nunca hão-de conseguir representar bem toda a variedade possível de interesses. E mesmo um panteão de pequenos partidos nunca o conseguirá. Há sempre assuntos importantes, mas pequenos ou novos demais para serem realmente compreendidos pela maioria ou pelas próprias instituições. A abolição da escravatura ou da pena de morte, o voto das mulheres são bons exemplos, mas também a discussão do trabalho precário que, apesar de ser uma realidade desde há décadas, só começou a ser realmente discutido aqui em Portugal desde os protestos da Geração à Rasca.

Dir-se-á que discutir todo e qualquer assunto não é pragmático, nem sequer praticável. Corre-se  risco de dispersão, de passar o tempo a discutir sem fazer realmente nada. Contudo, há quem defenda – e eu concordo – que a democracia é o governo através da discussão. O voto é apenas a maneira de escolher quais os melhores argumentos postos a debate. Assim, é da maior importância assegurar a amplitude e a qualidade desta discussão. O governo sistemático por parte de maiorias que não precisam realmente de argumentar as suas opções degrada e diminui essa discussão, reduzindo-a a uma mera formalidade.

Acredito que a melhor maneira de motivar e melhorar a discussão democrática é tornando-a o mais quotidiana possível. Estimulando o mais possível as situações em que se decidem as coisas através do debate argumentado. O design é um sítio tão bom como qualquer outro para começar a fazê-lo. Porém, percebe-se que há muitas maneiras de limitar também aqui a discussão. A mais frequente é o argumento da legitimidade institucional, que o designer deveria poder impôr a sua posição simplesmente porque é um designer, porque estudou para isso ou porque é um “grande nome” – um argumento de autoridade, obviamente.

Um design assente em princípios de autoridade tende a glorificar a ideia do designer ideal como uma espécie de monarca iluminado, que resolve os problemas dos seus clientes e do seu público pelo seu génio e não pela sua capacidade de gerir da melhor maneira possível os resultados de uma discussão.

Naturalmente, há maneiras de fazer design que sobrevivem melhor a uma discussão. O design de estilo suíço, por exemplo, pela sua modularidade e concisão pode ser facilmente alterado para reflectir os resultados de uma discussão. As suas qualidades tornam-no particularmente eficaz para ser usado em grandes estruturas empresariais onde pode sobreviver a longos processos de decisão, mas também pode ser usado para ser usado em iniciativas de participação democrática.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Política

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