The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Quem queima livros…

Aproveito aqui a deixa deste artigo do Montag que, a propósito do Farenheit 451, lembra os tempos em que se queimavam livros em Portugal. Em particular uma história contada por Vítor Silva Tavares* a propósito de como a própria editora queimou quase toda a tiragem do livro Crítica de Circunstância de Luiz Pacheco, por receio de que fosse apreendida pela PIDE, acabando por se salvarem apenas os que foram realmente apreendidos.

Vale a pena ler. Nem que seja para demonstrar o cinismo daquela corrente de pensamento que defende que o Salazarismo não era uma forma de fascismo (porque Salazar não usava uniforme, ou coisa do género). Havia pessoas que eram presas, torturadas e mortas; haviam livros queimados; havia uma polícia política. Para mim é suficiente. Concluir que o Salazarismo no fundo até foi benévolo só porque não matou ou prendeu tanta gente como a Alemanha de Hitler ou a União Soviética de Stalin é um argumento profundamente idiota.

Mas voltando a Vítor Silva Tavares, em entrevista ao Público em 2007:

“Fundei uma colecção muito bonita, ainda hoje gosto muito dela, ‘Poesia e Ensaio’. O Magalhães tinha a colecção dos sucessos literários, com os romances; tinha a colecção dos Documentos Sociológicos e Políticos; era a Ulisseia que publicava os livros da Pelikan. Mas não tinha Poesia e Ensaio. E até nessa colecção houve logo livros apreendidos. Desde ‘Feira Cabisbaixa’ do Alexandre O’Neill a uma antologia da poesia portuguesa do pós-Guerra, até casos mais graves. Fui eu que publiquei os ‘Condenados da Terra’, do Frantz Fanon, e tínhamos a guerra colonial. Esse livro servia de bíblia aos guerrilheiros ditos terroristas.”

Quando li esta passagem, citada também na biografia de Pacheco, lembrei-me que há um ano ou dois tinha comprado na livraria Utopia do Porto um exemplar dos “Condenados da Terra”, da Ulisseia e com design de Sebastião Rodrigues, com sinais evidentes de ter sido chamuscada (como se pode ver bem na imagem que abre este post). Não faço ideia como isso aconteceu. Pode perfeitamente ter sido salvo de um incêndio mas, dado o livro que é e o país onde estamos, dá que pensar.

Mais tarde, em outro alfarrabista, apanhei também uma edição da Comunidade de Luiz Pacheco, com sinais ainda mais evidentes de queimaduras, marcas castanhas e papel quebradiço nas margens, para além do cheiro inconfundível. Mais uma vez, não faço ideia de como ficou assim, mas fica a suspeita.

*Na biografia de Luiz Pacheco.

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Filed under: censura, Crítica, Cultura, Design, História, Política

One Response

  1. […] falar em Ulisseia, aqui fica um dos livros mais carismáticos da Pelikan traduzido, realmente traduzido, para […]

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