The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Histórias de Faca e Alguidar

Ainda rola a polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos. Só para recapitular: o Expresso está a publicar uma história de Portugal coordenada por Rui Ramos; em resposta, Loff escreveu no Público dois comentários críticos (aqui e aqui) acusando-o de branquear ideologicamente a ditadura de Salazar; à esquerda e à direita chovem insultos a cada um dos historiadores; Ramos escreve uma resposta no Público rebatendo as acusações que lhe foram feitas.

Contudo, lendo a resposta de Ramos, percebe-se que o historiador não está a responder às acusações que lhe são feitas mas a versões extremas e caricaturais destas, bastante mais fáceis de rebater – o que é costume neste género de discussões mais acesas. Até há um nome para o estratagema, a “Falácia do Espantalho”.

Por exemplo, Ramos afirma que “É dito que eu faço a história da ditadura de Salazar sem jamais mencionar a censura, a PIDE, a tortura, etc.”  Nada disso é dito em qualquer um dos artigos de Loff. O que se aproxima mais é uma passagem onde é acusado de não ter escrito “uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes”.

Outro exemplo: enquanto Loff acusa que da “violência colonial, dos massacres perpetrados contra africanos, nem uma palavra!”  –percebendo-se perfeitamente que fala de actos praticados pelo Estado Novo –, Ramos responde com:

É dito ainda que escondo a violência colonial, quando a verdade é que afirmo que, sob a ditadura de Salazar, tal como sob regimes anteriores [sublinhado meu], as populações das colónias estavam ‘à mercê da administração’ (p. 659), prosseguindo uma análise de pp. 563-565, em que enfatizo a dimensão violenta da colonização em África.”

Ou seja, responde dizendo que a violência da ditadura de Salazar não era muito diferente da de regimes anteriores (a 1ª República, talvez?). Essencialmente, ao longo dos dois textos, Loff acusa Ramos de dar uma visão mais branda do Salazarismo por comparação com regimes anteriores e posteriores, acusando-o de “desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo”, e fazendo uma leitura “manipulada da história”. Nesta passagem, Ramos dá-lhe razão.

Entretanto, e independentemente desta discussão mais ou menos académica entre dois historiadores, José Manuel Fernandes e Helena Matos demonstram como é perfeitamente possível acusar alguém (um historiador ou um jornalista, por exemplo) de difamação enquanto se ataca o carácter dessa mesma pessoa e se rejeitam por completo as suas habilitações. Um espanto.

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Filed under: Crítica, Cultura, História, Política, ,

5 Responses

  1. […] Pedro Rolo Duarte a pedir desculpa. E José Manuel Fernandes magnânimo. Nem interessa muito que a “cordata” resposta de Ramos não o seja de todo, nem cordata, nem resposta. Não responde sequer às afirmações que […]

  2. Tiro ao Alvo diz:

    Não leu o que escreveu o António Araújo? Parece.

    • Li, sim. E que diferença faz, neste debate em particular?

      O facto de fulano A ter dito ou feito qualquer coisa sobre outro assunto qualquer há 5, 6 anos atrás só demonstra (quando muito) que disse ou fez qualquer coisa há 5, 6 anos atrás. Não demonstra que o está a fazer agora.

      Uma boa reputação não prova, por si só, a verdade; só a torna mais provável.

      Num debate democrático, disputa-se o que está a ser dito e não quem o diz.

  3. […] dias pelos vistos ainda me conseguiu dar uns safanões à paciência. Já tinha dado exemplos em textos anteriores que, se Loff era acusado de citar Ramos fora do contexto, Ramos na sua resposta citava o próprio […]

  4. […] Discordo de um ou outro ponto, em particular a ideia que Rui Ramos respondeu com “serenidade académica” aos textos de Loff – o título da sua resposta “Um Caso de Difamação” bastaria para o demonstrar – e a convicção que teria desmontado a argumentação de Loff e provado até que ponto as suas frases ou ideias tinham sido deturpadas e descontextualizadas. Não sem ter ele próprio ter feito isso, exagerando e distorcendo os argumentos que contra ele eram levantados (ver aqui e aqui). […]

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