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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Televisão

Sempre que venho ao Algarve nos últimos anos tenho lido os grandes ensaios de David Foster Wallace, que prefiro à sua ficção. Há dois anos li o grande artigo (tanto na extensão como na qualidade) sobre David Lynch, escrito durante a rodagem do Lost Highway, e o seu igualmente grande artigo sobre o equivalente aos Óscares da indústria porno americana.

Agora, ando a ler o seu ensaio sobre televisão (E Unibus Pluram) – o que é atempado por causa de toda a discussão sobre a privatização do serviço público de televisão em Portugal. A tese de Wallace não parece ter muito interesse directo neste debate: ele defende que muita da ficção americana vê a realidade através do filtro da televisão; que a própria televisão vê a realidade através desse filtro; que é assim que se constroem as narrativas, as identidades, etc.

Na altura em que escrevia, 1990, isso começava a ser óbvio, com cada vez mais televisão a reflectir sobre a própria ideia de televisão, tanto na ficção como naquela forma enviesada de ficção que são os reality shows.

Vinte anos depois, com a internet e os computadores pelo meio, a televisão mudou. Nos velhos tempos, mesmo com as dezenas ou centenas de canais que já havia, cada um deles era um fluxo continuo de programas, concursos, séries, anúncios, uma corrente que se apanhava a meio e que se largava a meio. A expressão Channel Surfing era exacta. Agora, a televisão continua a ser isso, mas é também o facebook, o youtube, etc. Um canal já não é uma torrente, mas uma certa unidade editorial ou temática, que produz pacotes que podem ser vistos ou não no contexto de uma programação. Já não interessa muito o que vem antes ou o que vem depois.

Nas notícias, ainda há alguma ênfase no noticiário das oito, que marca o início do ciclo noticioso, mas as novelas, os concursos ou os filmes vão perdendo a sua ligação a esse ciclo. Sobretudo num sítio como Portugal. Nos Estados Unidos, ainda se decide a viabilidade de uma série (por exemplo) com base nas suas audiências, que dependem da hora e do canal a que é transmitida, da concorrência dos outros canais.

Aquilo que vejo neste momento é muito mediado pelo que vou lendo. Vejo a série A ou a série B porque alguém me aconselhou (seja essa pessoa um profissional da crítica ou um amigo). Às vezes basta uma referência no facebook ou twitter; uma imagem que chama mais. A mesma coisa em relação às notícias que interessam.

Dentro dessas séries, prefiro aquelas que representam a realidade que me é mais próxima e que inclui, como é óbvio, a internet, os telemóveis, os iPads, o Skype. Se os escritores de 1990 viam a realidade pela televisão, agora vêem-na pela net. Basta espreitar ficção tão subtil como The Good Wife, ostensivamente sobre um escritório de advogados, mas cobrindo todas as implicações políticas, éticas e emocionais de fazer campanhas de reeleição no youtube, de inventar uma nova forma de moeda electrónica, de contactar com outros países via skype, de quase todos os telemóveis terem uma máquina fotográfica, etc.

É essa reflexão que importa fazer neste momento, sem cair em moralismos fáceis e extremos, ou em nostalgias igualmente radicais. Não é fácil fazê-lo, porque a televisão, e os jornais e as revistas, por aqui não ajudam muito, reduzindo e simplificando o debate até quase só sobrar uma caricatura, um agregado de preconceitos.

Vinte e dois anos depois, a lucidez de Wallace é evidente, mas a televisão sobre a qual escrevia já desapareceu. Lê-lo é como ler Voltaire ou Swift, um argumento minucioso, intrincado e cativante a pôr em causa uma religião desaparecida.

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Filed under: Crítica, Cultura, História, nostalgia, Política

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