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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Debate do Debate do Século (e quem o está a vencer)

O debate da arquitectura portuguesa anda interessante, embora fique a sensação que os formatos onde aparece e os tópicos propostos não se ajustam de todo ao que se quer mesmo discutir – que é a política e a economia (sem grande surpresa, dados os tempos que correm).

Em Veneza, por exemplo, um daqueles temas vagos e vagamente esperançosos, típicos da bienal típica, Common Ground, foi interpretado pela comissária portuguesa, Inês Lobo, para falar sobre Lisboa, em três temas, também eles bastante “bienais”: Lisboa Baixa, Lisboa Rio e Lisboa Conexões (parecem nomes de bares ou hósteis). O resultado, inesperado, segundo a própria comissária (citada no Público de ontem), foi que “nas várias mesas-redondas, dois momentos surgiram como essenciais para esta reflexão: a reconstrução da Baixa pelo marquês de Pombal depois do terramoto de 1755; e a reconstrução do Chiado por Álvaro Siza depois do incêndio de 1988.”

Parece quase um lapso freudiano: a economia em ruínas, a política em ruínas, o país em ruínas, a arquitectura também ela vacilante, com desemprego, falta de projectos e crise identitária derivada; assim, discute-se a Reconstrução, presente e passada.

Mas a coisa é mais subtil do que isso, tendo em conta que se discute a reconstrução de uma reconstrução, Siza a refazer o trabalho do Marquês, como um desenho que reforça os traços de outro, vincando-os mas mudando-os também subtilmente. Se a Baixa Pombalina era pura geometria, ignorando resolutamente o passado, o Chiado de Siza é uma reconstrução também radical, mas interior, quase invisível.

Em 1988, ainda se podia dizer que Siza era Pós-Moderno, agora a designação é quase ofensiva, reservada ao Taveira e ao pior trabalho que se fez nos anos 80. Mas na altura, Siza era o Pós-Moderno do Norte e Taveira era o Pós-Moderno do Sul, numa espécie de guerra, de que o Chiado seria a campanha decisiva, feita em pleno território inimigo. O golpe de misericórdia foi a Pala da Expo.

Os vencedores ganharam o direito à intemporalidade, tornaram-se “modernos” ou talvez mais do que isso: “indiscutíveis”. Na realidade, venceu uma certa maneira de resolver intervenções em património –histórico, paisagístico, ecológico, público, privado. A solução dos Pós-Modernos do Sul era construir tudo de novo deixando umas referências mais ou menos irónicas: a fachada original, esventrada, a tapar a parede espelhada de um centro comercial; frontões gregos e pilares romanos de cartoon. Coisas muito vistosas. A solução do Norte era mais discreta: esconder, disfarçar, integrar. Uma linguagem elegante, formalista e agressiva escondida atrás de muros e de exteriores discretos.

Seria mais Souto Moura do que Siza a praticar e vulgarizar a fórmula vencedora e, neste momento, não há terreola que não tenha um convento, uma casa do povo, uma pousada com um projecto seu de remodelação, pronto ou pendente. A simples presença do arquitecto, do Pritzker, tornou-se um argumento de autoridade ambulante, para desencravar impasses e calar antagonistas.

Há várias maneiras de discutir política, e a estratégia mais comum, naturalmente dominante nos tempos que correm, é desvalorizar, ignorar ou silenciar todos os outros pontos de vista. Se a arquitectura, tal como o design ou a própria política, ainda vão tendo um debate interno (cada vez menos rico e variado), a abertura desse debate ao exterior é problemática – sobretudo quando a estratégia depende de emudecer o interlocutor.

Já se começa outra vez a falar de política na arquitectura, mas ainda de uma forma incipiente, temática: há arquitectos e assuntos que são políticos, enquanto outros, nem por isso. Conclui-se que a arquitectura no fundo até é política (como tudo o resto), quando isso deveria ser o ponto de partida e não a conclusão. Um bom exemplo é o artigo no Ípsilon sobre a exposição que Pedro Gadanho está a organizar no Moma, precisamente sobre política e invocando os projectos de Siza, durante o SAAL.

Porém, o Saal só é um bom exemplo porque não funcionou: era um projecto de arquitectura social, cooperativa, em que estes dois adjectivos não se limitavam a descrever modos de organização, mas eram muito, muito literais. Era uma arquitectura negociada, comprometida, discutida, com moradores, políticos, arquitectos, etc. E falhou. Só foi recuperada depois de virada do avesso. A arquitectura de brigada tornar-se-ia na arquitectura do Siza; o bairro social murado transformar-se-ia no condomínio social. O Bairro do Siza, como agora é conhecido, ilustra bem o programa dominante na arquitectura portuguesa: problematizar as relações entre exterior e interior, fazendo esquecer que essa fronteira é política (que é como quem diz: instituindo-a).

O próprio facto de Gadanho (um português em Nova Iorque) estar a fazer uma exposição sobre arquitectura e política indica que se espera da cultura portuguesa algum tipo de política. Espera-se que, de um dos campos de batalha onde a crise se está a travar (Portugal), saia um vencedor, uma maneira de relacionar política com cultura ou de repolitizar a própria cultura. E esse debate está realmente a ser feito por aqui, a bem ou a mal, em fóruns largamente adversos ou indiferentes – o que indicia bem quem o está a vencer e qual a sua política.

Como estamos na internet, onde se espera não um subentendido mas uma martelada na cabeça: o debate está a ser vencido por quem não gosta muito de debates. A política arrisca-se a ser só um corante, um tema, um estilo, aplicado ironicamente sobre a sua ausência. Tal como muito design se dedica a celebrar a pobreza tornando-a num produto gourmet, de luxo, o que mostra qual é o público-alvo a quem o empobrecimento convém, a arquitectura e a política navegam as mesmas águas turvas.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, Economia, História, Política, Prontuário da Crise

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