The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Motivos e Autoridades

Já não tenho grande pachorra para escrever muito mais sobre o caso Loff-Ramos. Nem me apetece repetir ou sequer recapitular a refrega. Tenho as minhas ideias sobre quem se portou melhor e quem acabou por ser aclamado vencedor (um e outro não são, na minha opinião, a mesma pessoa).

Se volto ao assunto, é apenas para deixar registado que só uma ínfima parte da discussão se centrou no que estava a ser argumentado por cada um dos envolvidos. O que acabou por ser discutido foram, antes e acima de tudo, os motivos que os levaram a intervir (se tinham uma agenda de esquerda ou de direita), e a sua legitimidade para falar ou para ser ouvidos (se tinham ou não autoridade para isso) – nada de muito diferente das discussões que correm por aí, pelos jornais ou pela blogosfera.

Serve o presente texto para argumentar que centrar uma discussão nos motivos ou na autoridade de quem debate é (na grande grande maioria dos casos; não todos) uma perda de tempo. Quando muito serve para marcar o momento preciso em que um debate descamba.

Como é óbvio, não tenho qualquer esperança de mudar os hábitos ou as opiniões de quem começa uma discussão pondo em causa os motivos ou a legitimidade de quem discorda das suas posições. Se, aos olhos do outro, não tenho, nem posso ter, qualquer motivo ou legitimidade para discordar dele, então nem sequer vale a pena discutir.

Para mim, a legitimidade de discutir exerce-se discutindo. Numa sociedade livre e democrática, não há, nem pode haver, pré-requisitos para entrar. Não há nada, à partida, que impeça o comum dos mortais de opinar sobre política, economia, religião, simplesmente porque cada um desses assuntos lhe diz respeito. Qualquer assunto que tenha interesse público pode ser discutido por quem tenha interesse em fazê-lo.

Isso não é a mesma coisa que dizer que se pode dizer o que quer que seja sobre o que quer que seja. Às vezes, faz-se figura de urso. Outras vezes, está-se a prejudicar as acções de outras pessoas (o que pode ser bom ou mau dependendo dessas acções). Mas é impossível sabê-lo com toda a certeza antes de falar ou de ouvir.

(É claro que, às vezes não se pode ouvir o que toda a gente tem a dizer sempre, mas há uma diferença entre ver isso como uma perda ou um ganho.)

Descartar a opinião de uma pessoa, antes ou depois de a ouvir, apenas porque não tem um curso, tem uma ideologia ou religião que não é a nossa, ou tudo o que ouvimos até agora dela não fez sentido, é um preconceito. Muito de vez em quando, concordo com alguma coisa que José Manuel Fernandes (só para usar um exemplo circunscrito à polémica Loff-Ramos) diz, e, mais raramente ainda, concordo por vezes com o modo como o defende. Descartar tudo o que Fernandes escreve antes de o ler, discordar dele sem me esforçar por apresentar as razões porque o faço seria uma falta de respeito não apenas para com ele, mas para com a própria ideia de debate (embora me custe, é verdade).

O mesmo é válido quando nos socorremos da opinião de alguém para sustentar a nossa. É sempre um risco fazê-lo: pode acabar por ser uma opinião de má qualidade ou podemos estar a aplicá-lá mal. E os argumentos de autoridade são como cheques. Aceitam-se por confiança, mas só quando se vai ao banco com eles é que se percebe se valem alguma coisa. A credibilidade só torna a verdade mais provável; não a prova, só por si.

Isto quanto à legitimidade. Quanto aos motivos, interesses ou segundas intenções, são em geral invocados para dar a entender que fulano só fez certa afirmação porque lhe interessa, querendo dizer com isso que tem razões para mentir ou distorcer os factos. Contudo, ter motivo para mentir não é, só por si, prova que se mentiu. Os motivos não nos dizem se as afirmações de alguém são falsas ou nocivas.

De resto, quando duas pessoas debatem, é bem provável que isso se deva a terem motivos ou interesses distintos sobre um tema. Acusar o interlocutor de ter motivos distintos dos nossos é uma redundância e uma perda de tempo. Apurar os motivos pelos quais alguém discute só é útil para perceber melhor o que está a ser debatido e como – numa discussão, importa apenas isso: o que está a ser debatido e como. Com isto quero dizer os factos, a argumentação, e o modo como se articulam entre si.

Porquê estes cuidados todos? Para garantir que toda a gente tem as mesmas vantagens e os mesmos riscos à partida quando participa numa discussão pública. É por isso que se discute o que se diz e não quem o diz ou porque o diz – porque isso não devia fazer diferença nenhuma. Quando começa a fazer, quando a vida de cada um vem demasiado à baila, a discussão vai deixando de ser pública, e vai-se também ela privatizando – o que indica talvez o tipo de sociedade onde já só se discutem motivos e legitimidade.

Filed under: Ética, Não é bem design, mas..., Política, , , , ,

4 Responses

  1. O facto de ser preciso explicar o funcionamento mais elementar duma discussão em Democracia é revelador da pobreza intelectual da discussão pública em Portugal. A lógica deveria ser o nosso único critério de Verdade. A validade de uma opinião mede-se pela qualidade dos argumentos utilizados. Não se mede pelos bonitos olhos do interlocutor, nem pelas suas convicções politicas, nem pelas suas preferências sexuais, culinárias, culturais ou outras.

    Esta polémica Loff-Ramos podia ter sido uma oportunidade para se discutir assuntos que normalmente têm pouco espaço na opinião pública (sempre ávida do agora, do presente, do imediato.) Podia ter sido uma oportunidade para que pessoas com menos conhecimento de História ficassem a saber um pouco mais, quiçá até com vontade de investigar o assunto e por aí fora.

    Eu não tenho conhecimento suficiente sobre o assunto para opinar sobre o conteúdo da discussão. No entanto, tendo acompanhado a discussão, parece-me evidente que Loff argumenta uma série de coisas que Ramos decidiu ignorar preferindo atacar a credibilidade, ou autoridade, de Loff para as argumentar. E isso é profundamente idiota.

    (peço desculpa por ter comentado primeiro no post errado, fui induzido em erro pelo layout do blog 😉 )

  2. […] é mais um texto em grande medida inútil; tal como este outro, pretende ser um pequeno ensaio argumentativo sobre discussões que não vale a pena ter. Quem o […]

  3. […] tinha dito que não tinha muito mais pachorra para escrever directamente sobre a polémica Loff-Ramos, mas uma […]

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