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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sociedade Anónima

Este é mais um texto em grande medida inútil; tal como este outro, pretende ser um pequeno ensaio argumentativo sobre discussões que não vale a pena ter. Quem o ler agora, verá nele restos da polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, mas escrevi-o em parte como um esboço para uma reflexão mais alargada sobre discutir na internet.

O ponto de partida são certos posts, artigos e, mais frequentemente, comentários onde um anónimo, assinando ou não com uma alcunha, se queixa que tal pessoa (perfeitamente identificada) não é ninguém: “Mas quem é ele para dizer aquilo?” – e expressões do género, onde alguém, cuja única reputação é não ter qualquer tipo de reputação (para além da pequena amostra de identidade apresentada naquela discussão) declara que a reputação de alguém não existe. Podia ser uma daquelas situações clássicas onde se tenta perceber se é possível confiar num ateniense que diz que todos, mas mesmo todos, os atenienses são mentirosos. Anónimo só confia em currículos sólidos.

Mas atenção: este não é um texto contra o anonimato. Há situações onde é perigoso assumir a autoria de um texto, onde se arrisca o emprego ou até a própria vida. Mesmo a simples timidez é perfeitamente razoável como motivo para não dar o nome. Não é a falta de assinatura que me incomoda, mas a falta de argumentos de qualquer espécie. Um texto anónimo pode ser perfeitamente argumentado enquanto os textos de muito bom jornalista, cronista, ex-editor ou actual director de semanário eram capazes de envergonhar (cada um) meia-dúzia de trolls. Na verdade, muito do que esta gente escreve ficava a ganhar se fosse anónimo: ainda era possível imaginar que tinham mais cuidado com o que diziam em outras ocasiões.

Há quase uma década, quando comecei a escrever para aqui, escolhi fazê-lo anonimamente, embora não em segredo. Nunca me esforcei por esconder a minha identidade. Simplesmente, não assinava os textos. Quem convivia comigo, sabia (amigos, colegas, alunos – era um conhecimento local). Com o tempo, comecei a assinar com o meu nome, mas ainda os vejo como essencialmente anónimos. Não é uma contradição.

Aquilo que me identifica aqui no blogue é uma pequena biografia. Enumera alguns sítios onde publiquei e trabalhei. Não é exaustiva. Deixa de fora algum do trabalho que me orgulho mais de ter feito: as seis conferências que dei na Culturgest; a disciplina que leccionei nas Belas Artes de Lisboa, baseada na investigação que fiz para a minha tese de doutoramento (grau que também omito). Mais uma vez, não escondo nenhuma destas coisas; já as referi aqui de passagem muitas vezes. Deixo-as de fora por falta de convicção. Não nelas (gostei de as fazer) mas na própria ideia de biografia.

Não me parece que a biografia de alguém seja essencial a uma discussão. É o ideal democrático: num debate, todos deveriam ter as mesmas oportunidades à partida. É claro que se pode usar o percurso de alguém para perceber se é uma pessoa séria ou se tem a tendência para mentir sobre o seu próprio percurso – o único conhecimento rigoroso que se pode exigir de alguém será talvez o da sua própria vida, mas mesmo isso é relativo – podem-se viver situações que nos ultrapassam e das quais não chegamos a perceber realmente o alcance (é bastante comum).

Mas em geral, não deve ser a biografia que é julgada; apenas as declarações que alguém faz sobre ela (seja sua ou de outro). Por exemplo, argumentou-se a propósito da licenciatura de Relvas que não devia fazer diferença nenhuma, que Portugal ainda era demasiado obcecado por doutores, mas não se tratava de exigir um grau ao ministro, apenas que não mentisse sobre o assunto.

No meu próprio caso, que uso aqui como exemplo para situações onde se argumenta com base em biografias que achamos que conhecemos, ainda me diverte que, nos tempos anónimos do blogue, se tenha desvalorizado algo que defendia porque eu “era do Porto”, quando na verdade sou de Lisboa. Nasci e vivi lá muito tempo. Vivi também em Vila Real de Trás-os-Montes. Estudei e trabalho no Porto; quando não trabalho, vivo em Lisboa.

Diverte-me também que se tenha dito que, sendo anónimo, não tinha autoridade para falar (quem era eu, pra falar). Pouco depois contrapunha-se que não tinha autoridade para falar porque era professor universitário. E alguém acrescentava que devia falar menos do star system e mais do design anónimo.

E habituei-me a ser atacado regularmente por não ter habilitações: quem sou para dizer isto ou aquilo? Porque não falo só daquilo que entendo? (e não de arte, arquitectura ou política). Não me incomoda tanto como a ideia de que é preciso ter licença para falar do que me parece importante. Se há uma licenciatura e doutoramento numa área qualquer é porque interessa à sociedade em geral e não apenas a quem a pratica. E, numa sociedade livre, o que interessa discute-se livremente, tenha-se ou não habilitações para isso. Exercer uma actividade em sociedade significa estar disposto a discuti-lá.

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Filed under: Autoria, Ética, Crítica, Cultura, Design, Política, ,

One Response

  1. […] Ricardo Araújo Pereira explicou-o muito bem nesta crónica. Mário Moura também falou do assunto aqui, além de noutros textos aos quais se chega com uma pesquisa rápida no Ressabiator. E no geral, […]

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