The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pachorra

Já tinha dito que não tinha muito mais pachorra para escrever directamente sobre a polémica Loff-Ramos, mas uma série de artigos defendendo Ramos nas edições do Público dos últimos dias pelos vistos ainda me conseguiu dar uns safanões à paciência. Já tinha dado exemplos em textos anteriores que, se Loff era acusado de citar Ramos fora do contexto, Ramos na sua resposta citava o próprio Loff fora do contexto. Fica aqui uma comparação mais exaustiva e ponto a ponto.

1.

Ramos: “É dito ter eu afirmado que Salazar não era uma ‘personagem ditatorial’, no sentido em que não era um ditador e o seu regime não era uma ditadura.”

Na verdade, Loff não o diz nesse sentido. Acusa-o, mais subtilmente, de apresentar Salazar como alguém que não era exactamente um fascista porque não tinha “‘nada de uma personagem ditatorial’ como a dos líderes da Europa fascista do tempo […].Neste campo, a primeira das suas preocupações é a mais comum entre os historiadores da área de RR: desenhar um Salazar sensato e algo neurasténico, que não gostaria de uniformes (apesar da origem militar do regime e do seu caráter inevitavelmente policial e repressivo) e que nada teria a ver com Hitler, Mussolini ou Franco.” (sublinhado meu)

Loff acusa Ramos de apresentar um Salazar que não é fascista; Ramos responde como se estivesse a ser acusado de negar que Salazar era um ditador e que o regime não era uma ditadura. Tendo em conta que muita da abordagem de Ramos se esforça a distinguir entre a ditadura de Salazar e o Fascismo, é curioso que ele próprio confunda uma acusação de negar que o regime era fascista com outra de negar que o regime era uma ditadura. Afinal, a ditadura era ou não fascista?

2.

Ramos: “É dito que eu considero o Estado Novo um regime absolutamente idêntico à monarquia constitucional do século XIX.”

Loff: “Para RR, o salazarismo era ‘uma espécie de uma monarquia constituciona[…]'”

(sublinhados meus)

3.

Ramos: “É dito que eu considero o Estado Novo um regime que não se distingue das democracias ocidentais do pós-guerra, quando o que eu digo, a pp. 667-670, é que a Guerra Fria levou as democracias ocidentais a tolerar e a enquadrar ditaduras como a de Salazar, cujas semelhanças com a Itália fascista noto”.

Na sua História, Ramos escreve de facto que a Guerra Fria levou as democracias ocidentais a tolerar o regime de Salazar, entre outros. Mas acrescenta, tal como Loff assinala: “Portugal não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de direito e a rotação regular estavam longe de ser a norma da vida política. Na Europa ocupada pela União Soviética não havia oposição legal nem liberdade de imprensa. A Índia desenvolveu instituições representativas, mas a maior parte dos novos Estados da África e da Ásia seguiu a via da ditadura. Mesmo na Europa democrática, onde havia pluralismo partidário e liberdade de imprensa, produziu monopólios de um partido, como a Itália ou a Suécia, ou sistemas de poder pessoal, como a França no tempo de De Gaulle. A ‘defesa nacional’ justificou por todo o lado, restrições e perversões”.

Loff não acusa Ramos de não distinguir o Salazarismo da democracia ocidental típica, mas de relativizar a diferença entre os dois, de “esbater a diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos.” É uma distinção subtil mas importante.

4.

Ramos: “É dito que eu faço a história da ditadura de Salazar sem jamais mencionar a censura, a PIDE, a tortura, etc.”

Loff nunca diz isto. O mais próximo que encontrei é uma acusação que Ramos não escreveu “uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes.” Que não é, muito claramente, a mesma coisa.

5.

Ramos: “É dito ainda que escondo a violência colonial, quando a verdade é que afirmo que, sob a ditadura de Salazar, tal como sob regimes anteriores, as populações das colónias estavam ‘à mercê da administração’ (p. 659), prosseguindo uma análise de pp. 563-565, em que enfatizo a dimensão violenta da colonização em África.”

Também já o tinha coberto aqui. Nas partes que li dedicadas ao “Império Colonial” e à “Colonização e à guerra em África” não há de facto uma palavra sobre massacres feitos sobre africanos. E repare-se que na sua resposta Ramos relativiza o jugo colonial de Salazar, dizendo que era “tal como em regimes anteriores”.

Na História, ainda se sai com algumas pérolas: que a guerra, graças às iniciativas de construção de escolas, diques e alojamentos por parte do exército se tinha tornado “num factor de transformação social” nas colónias; ou “Em Portugal, a ditadura impediu debates públicos e a sociedade rural forneceu soldados obedientes  e acolheu, com agrado, os seus prés. Como constataram militantes da oposição na província, a guerra foi aceite, depois de se perceber que ‘não matava tanta gente como se julgava’.”  Note-se que a ideia que a guerra até nem era tão má como isso é sustentada numa única fonte identificada; se calhar até se podia encontrar pelo menos mais uma, sem grande esforço.

6. (concluindo)

Ramos diz que podia dar mais exemplos. Os que comentei acima são todos os que apresenta. Todos eles distorcem ou evitam uma resposta aos argumentos de Loff. Se calhar tanta má citação (simplesmente errada, tirada do contexto ou dubiamente interpretada) de dois documentos publicados menos de um mês antes deve-se prosaicamente ao facto de Ramos ser um Historiador e portanto só conseguir citar e interpretar documentos suficientemente distantes no tempo – outra possibilidade (divertida, mas infelizmente improvável) é que o título da resposta de Ramos seja uma descrição do seu próprio texto e não dos de Loff.

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Filed under: História, Política, ,

2 Responses

  1. Armando Cerqueira diz:

    Eu li o texto de Rui Ramos sobre o PREC na edição original da sua História de Portugal (que é antes uma ‘estória’ de Portugal para os pequeninos de espírito).

    Achei-a, simplesmente, intelectualmente e cientificamente repugnante, mistificadora, demagógica e falsa. Sei do que falo, pois sou licenciado em História, que é um dos meus dois ‘hobbies’ principais desde há cinquenta anos…

    Armando Cerqueira

  2. […] próprio ter feito isso, exagerando e distorcendo os argumentos que contra ele eram levantados (ver aqui e […]

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