The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Casas moribundas com gente viva lá dentro

Tanto quanto se pode perceber pelas fotos e pela curta descrição, parece um projecto com interesse: cobrir casas destinadas à demolição com os retratos dos seus ocupantes, dando-lhes literalmente um rosto, humanizando-as; obrigando quem as está a demolir a perceber que ali vive gente – uma iniciativa de dois alunos das Belas Artes de Lisboa.

O estilo não se parece com o habitualmente usado em intervenção política mas com certas campanhas publicitárias (de desporto ou de promoção nacional), o que tem a virtude de contrastar, mais do que chocar, com o local e a situação. As poses e o à-vontade dos retratados escapam à vitimização fácil e condescendente de muitas iniciativas semelhantes. Não é muito difícil chocar e escandalizar a opinião pública nos tempos que correm, mas isso resulta mais em polarização agressiva do que em tomadas de consciência, tolerância e compromisso entre posições distintas. Campanhas ou intervenções que se escapem aos modelos esperados têm a vantagem de se escaparem um pouco mais ao preconceito – embora isso seja impossível, como veremos mais abaixo, lá para o fim deste texto.

Nos últimos anos têm aparecido duas grandes tendências na arte urbana. Uma (previsível), é a escala cada vez ambiciosa das intervenções em edifícios devolutos, despejados, desocupados ou ocupados, que reflecte a abundância de “matéria-prima” numa crise provocada pelo crédito à habitação e piorada por políticas de austeridade e privatização. Um apartamento, antes da crise, já se reduzia muitas vezes a uma espécie de bilhete ou cautela desabitada, um certificado de investimento tridimensional, mobilado e equipado. Agora, as cidades assemelham-se ao chão de uma Bolsa de Valores ou de um Derby; as centenas de apartamentos vazios, bilhetes rasgados, à espera de uma intervenção qualquer.

A outra tendência é o investimento cada vez maior na fotografia ou no fotorealismo. Na arte, a evolução dos estilos faz-se muitas vezes por oposições formais ou de suporte em relação a estilos anteriores. Neste caso, o realismo fotográfico opõe-se muito obviamente às características do grafitti clássico, que era mais gráfico, denso, intrincado, abstracto e muitas vezes textual.

No caso de alguns criadores como VHILS, o fotorealismo conseguido através do desgaste da parede, tornando o desenho num baixo-relevo, também desacelera o grafitti, distanciando-o do traço frenético habitual dos tags. Juntando este vagar à grande escala das intervenções, também se adivinha mais tolerância, cobertura mediática e até apoios para este género de intervenção, se não do poder político pelo menos dos agentes culturais ou até dos habitantes. De notar ainda que a pincelada e o traço, a tinta directamente aplicada na parede, são substituídos por técnicas mais invasivas (remoção de tinta ou estuque) ou menos, como a colagem de papel ou de objectos.

O uso de fotografia, tanto no trabalho em si como no seu registo, levanta algumas questões. Eu soube deste trabalho através do blog Jugular, onde o primeiro comentário chamava logo a atenção para haverem antenas da Zon em casas de famílias cuja média de rendimentos andava entre 250 e 300 euros mensais, sugerindo uma possível falcatrua.

Neste aspecto, estou com o Paul Krugman: se as políticas sociais (nem tanto o RSI, que precisa sempre de alguma fiscalização, mas medidas mais pequenas como Passes Sociais ou Isenção de Taxas Moderadoras) dependerem demasiado da demonstração que se é pobre, cai-se no risco de a) incentivar as famílias a permanecerem pobres porque a partir de certo rendimento já não recebem apoios b) mentirem c) o contribuinte gastar um monte de dinheiro em má-vontade e desconfiança (processamento de informação e fiscalização).

Mas, voltando à fotografia da antena, o acto de intervir através do registo fotográfico torna-se também num acto de incriminação em potência – o que se torna perigoso numa esfera pública que cai numa argumentação cada vez mais extrema: onde, se não se é completa e visivelmente miserável, se corre o risco de ser apelidado de piegas ou de chico-esperto, que vive à custa dos impostos e da boa-vontade alheia. A coisa resolvia-se com um pouco mais de tolerância; de perceber que há uma escala de valores e que não estar a morrer à fome não prova que se está a enganar o parceiro.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Fotografia, Política, Prontuário da Crise

5 Responses

  1. inês delicioso diz:

    muito lindo, mas é melhor is ver o JR http://www.jr-art.net/ que faz exactamente a mesma coisa, há muito tempo, e diria que em melhor.

    • Essa referência já aparecia citada no artigo onde o projecto é descrito (http://noticias.sapo.pt/fotos/os-rostos-do-bairro-de-santa-filomena_230028/5047153ce1a1ca6a49001a19/#verfoto). E já conhecia a maioria dos projectos. Daí ter falado em “tendências”.

      • inês delicioso diz:

        Mário, entendo que queira chamar-lhe tendências, mas acho esta “tendência” discutível.
        Considerando o contexto globalizante em que vivemos, não será que os próprios alunos, provavelmente fascinados pela descoberta de um artista espetacular como o JR, resolveram fazer o mesmo? Há que admitir que estas colagens não me parecem de todo uma “tendência” mas sim uma cópia descarada, de todo um corpo de trabalho de outro artista. É que até o conceito social e informativo, não diminutivo dos sujeitos retratados e etc etc, é uma cópia!
        Tudo bem que o que interessa pelos vistos aqui no seu artigo tem a ver com uma antena infeliz que por lá andava numa fachada, e as suas consequências na caracterização social dos moradores. Mas esperaria pelo menos uma crítica mais assertiva da sua parte em relação ao vazio das ideias desses alunos… Por muito que apareça referenciado no artigo original como um projecto que “recorda a iniciativa”, eu cá diria que não recorda, não alude nem é inspirado pelo JR. É uma cópia bem intencionada, mas não deixa de ser uma cópia descarada.

      • Não acredito que seja muito útil sujeitar a intervenção política e social a direitos de autor. Corre-se o risco de criticar uma intervenção, não pela sua pertinência, mas pela sua originalidade. Se a reutilização de uma ideia num contexto social se torna impossível, para quê tê-la sequer em primeiro lugar?

  2. inês delicioso diz:

    Obrigada pelas respostas Mário, quero só concluir que gosto bastante de ler o seu blog. E muitas vezes me identifico em alguns posts seus. Mas creio que a abordagem leviana à tal “inspiração” não é propriamente a minha “cup of tea”. Chame-lhe radicalismo, mas acredito que os orgãos de comunicação, com a responsabilidade que têm de informar e influenciar as pessoas que os lêem, deveriam ser correctos e precisos no que passam para o público.

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