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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que ando a ler

Depois de End This Depression, a minha leitura actual e compulsiva é What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets, de Michael J. Sandel. O título explica bem o programa: que o mercado enquanto ética não chega. Que “deixámos de ter uma economia de mercado para ser uma economia de mercado.”

Começa com uma discussão das filas de espera e das implicações éticas e de igualdade de pagar para passar à frente. Como acredito que a fila de espera é uma representação gráfica (e performativa) da ideia de civismo e igualdade, bastava isso para me colar ao livro, mas Sandel ainda propõe uma definição expandida de corrupção tão óbvia como brilhante: “But corruption refers to more than bribes and illicit payments. To corrupt a good or a social practice is to degrade it, to treat it according to a lower mode of valuation than is appropriate for it.” – que a corrupção consiste em comprar e vender coisas que não deveriam estar à venda, não apenas políticos, mas hábitos, relações familiares, órgãos, etc.

Dentro deste esquema, é fácil perceber porque o tráfico de influências, o favorecimento e a corrupção cada vez mais óbvias na sociedade portuguesa não são uma perversão da ultra-liberalização mas a sua consequência inevitável. Não adianta portanto reclamar (como certa direita) que as reformas neo-liberais deste governo não têm os efeitos esperados porque não são uma verdadeira liberalização, porque há corrupção, favorecimento e monopólios. Se a lógica de mercado se expande até ser idealmente auto-regulada não há nada que lhe escape ou que a efectivamente limite. Que é como quem diz: para regular os mercados, evitando os tais excessos e perversões é preciso haver algo para lá dos mercados que os regule.

A solução neo-liberal para evitar a corrupção do Estado seria reduzi-lo a quase nada; a solução mais óbvia seria reduzir a corrupção, separando o mais possível Estado e Mercado, ou pelo menos Ética e Mercado.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. […] Já que o governo tem o seu, a favor da austeridade, se calhar é conveniente deixar aqui o oposto. O melhor e mais resumido que li até agora é este. E se quiserem uma versão que inclua argumentos éticos, este. […]

  2. […] ideal até podia funcionar, a privatização tal como está a ser concretizada não passa da legalização e eventual constitucionalização da corrupção. Esta reportagem da TVI demonstra-o mais uma vez: fundos e recursos públicos utilizados contra o […]

  3. […] para o fazer com direito a cobertura televisiva. Hoje gaba (e bem) o livro de Michael J. Sandel, What Money Can’t Buy, um alerta sobre os limites morais do mercado, sobre as consequências éticas e cívicas de tudo […]

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