The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

E agora?

Terminada a manifestação começou a parte  penosa que consiste em ouvir e ler que, com o devido respeito pela democracia (sair à rua é um direito) tudo isto não serviu para nada. Que os motivos eram demasiados. Que o descontentamento era óbvio, mas não havia soluções; não havia uma causa unificadora, uma palavra de ordem. E é uma treta, como é evidente. Vi um monte de coelhos de peluche com um cordel ao pescoço. Deve ser uma pista. Vi cartazes que eram só uma cara zangada. Outra pista. Vi cartazes sobre desemprego. Vi sacos de tinta a serem atirados a bancos. Havia pessoas que não eram Amigas do Gaspar.

Vi muitos cartazes escritos a letra miudinha que só consegui ler porque os fotografei, demonstrando que as queixas, as soluções e os slogans já não conseguem ser simples ou intuitivos. Não com estes problemas.

Vi no facebook um cartaz a apelar a Draghi para ligar as máquinas (de imprimir dinheiro). A macroeconomia chega às bocas do povo. E, se isto continua, calculo que boa parte dos cartazes comecem a ser cada vez mais macroeconómicos: “O povo precisa de estímulo”, “Todos poupam, ninguém ganha”, ou coisa do género.

Não sei se conseguiria resumir a coisa o suficiente para pôr num cartaz, mas a minha fantasia de protesto macroeconómico seria implorar à Alemanha para começar a gastar mais dinheiro, não com Portugal mas com os próprios Alemães, aumentando salários, multiplicando os serviços públicos, usando o dinheiro que lhes é emprestado com juros negativos para estimular a economia. Subindo os salários alemães, não seria preciso baixar tanto os portugueses em termos relativos. E quem diz a Alemanha diz a Inglaterra e todos os países que se sujeitam às doutrinas da austeridade só porque lhes apetece.*

Para já, os Estados Unidos já estão a fazer isso. Pode ser que a moda pegue.

No Porto, a manifestação foi pacífica mas sentia-se uma impaciência, uma certeza que aquilo ia acabar por não dar em nada. Alguém sugeria que se fizesse aquilo todas as semanas ou até todos os dias. Apesar da escala evidente e inegável daquela gente toda, pairava a sensação que não ia chegar. Talvez por isso, em Lisboa as coisas tenham sido menos pacíficas e em Aveiro alguém se tenha imolado pelo fogo.

Vi um minúsculo cartaz a dizer que o povo é sereno. Vinha pregado num grossíssimo varapau.

––

*Esta seria parte da solução de Krugman para o problema Europeu, por exemplo.

––

E um parênteses que não tem nada a ver:

(Há tapetes como o do Dude, que compõem a sala; há tapetes que dizem “Bem-Vindo”; há tapetes que não dizem nada. Se calhar sou só eu, mas um tapete de entrada como este é capaz de dar a ideia errada, sobretudo se a casa pertencer a alguém que não se acha um Fanático dos Pópós:

)

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

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