The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design que Falhou

A última remodelação tornou o Público o jornal quase ideal para esta crise. Dá, diariamente, a cobertura sistemática, informada e útil, que esta actualidade política sustentada por doses industriais de treta precisa. Poderia ainda melhorar, claro. Mas não passo sem ele. Houve ocasiões no passado em que o lia com uma sensação de irritação. Agora, o momento em que a edição electrónica diária em pdf fica disponível, por volta das seis da manhã, é como a chegada do Pai Natal.

Tenho os meus colunistas favoritos: Teresa de Sousa, Rui Tavares, José Vítor Malheiros, José Pacheco Pereira, entre outros, cujas opiniões respeito, mesmo e sobretudo quando não concordo inteiramente ou de todo. No Ípsilon, ainda tenho António Pinto Ribeiro e na Revista de Domingo, Jorge Figueira ou Jorge Silva, mas neste momento, gosto do jornal. Prefiro o jornal. O que é uma coisa nunca vista.

Sempre comprei o Público pelos suplementos de cultura. Durante muito tempo, atirava fora os cadernos de actualidade do Expresso sem olhar sequer para eles. Neste momento, a minha preferência inverteu-se e não é apenas culpa da crise.

Os suplementos culturais e as revistas semanais são agora sobre luxo e consumo, sem grandes disfarces ou paliativos. E sem grande interesse que não relaxar os músculos que permitem manter a boca fechada. É nesta parte dos jornais que reina o design.

Se para os ingleses o design pode ser um nome e um verbo, um objecto e uma acção, em português só consegue ser um nome ou, mais irritantemente, um adjectivo. Uma lambidela de sofisticação aplicada superficialmente a outra coisa qualquer. Cadeiras design. Bicicletas design. Malgas design. Papas de aveia design. Etc.

Hoje no Público, o design foi promovido ao caderno principal, a uma dupla página, que se destaca do resto pelo tom beje do fundo, onde um especialista convidado trata um determinado assunto que pode ir desde uma publicação até uma análise económica. Neste caso, trata-se de investigar o sucesso das exportações de calçado português. Ao contrário do preconceito habitual, não se trata de produtos de segunda feitos por mão de obra barata, mas de sapatos caros com design. Os segundos mais caros da Europa.

Pode parecer que isto contradiz as políticas deste governo, que apostam na mão de obra barata e numa produção que não acrescenta mais-valias, mas isso não é, pura e simplesmente, verdade. Não há contradição nenhuma. As mais-valias (o design, a qualidade, a inovação) estão lá. São em muitos casos produzidas por um autêntico exército de designers estagiários e precários (espero que não seja esse o caso do calçado, mas há bastantes exemplos de design de luxo feito por estagiários ou quase).

O empobrecimento mais dramático a que se assiste nesta crise não é o do operário clássico (já de si dramático), mas o do trabalhador intelectual, que se espera (que ele próprio espera) estar disposto a “colaborar” de graça nos projectos, demonstrando “iniciativa” antes (ou em vez) de receber sequer um tostão. Foram esses argumentos os usados a propósito da greve da fome do José Cardoso na semana passada: que em vez de fazer uma greve da fome por um emprego deveria estar a fazer o que toda a gente faz que é ir à luta, mostrar iniciativa, na verdade investindo tempo e dinheiro trabalhar para outra pessoa.

Já disse em outras ocasiões que o designer (sobretudo o estagiário) era a mascote da crise. Ele demonstra todas as contradições e preconceitos que a agravam. Espera-se, por exemplo, que a oferta de produtos de luxo seja sustentada pelo trabalho criativo de designers que não recebem um tostão – e é obviamente uma galinha dos ovos de ouro, uma saída para crise! É óbvio que dá lucro!

Nunca se tratou de falta de trabalho para os designers; apenas de trabalho pago.

Ontem no Público, apareceu uma lista sobre design que falhou, produtos e situações onde o design tinha dado para o torto. Nenhum deles chegava aos pés disto.

Qual a solução? Eu diria, em primeiro lugar, mais financiamento às universidades e escolas, que lhes permitissem ter menos alunos, e portanto menos gente a entrar para o mercado. Em segundo lugar, um sindicato e não uma ordem, porque se trata de assegurar a relação entre trabalhadores e empresas e não entre designers e clientes.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Estágios, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. The One who has seen it from the Inside diz:

    Isto faz-me lembrar algo… Ah sim! Este texto: https://ressabiator.wordpress.com/2011/11/26/ha/
    Realmente o que fala aqui, Mário, faz-me lembrar aquilo que se passa na empresa referida no link. Design de luxo pensado por estagiários (que muitas vezes nem em estágio profissional estão).

  2. Prezado diz:

    Há tempos tive o privilegio de ter um diálogo com um empresário que me explicava como tinha arrancado com a sua empresa, usando a frase proverbial “não querem é trabalhar”, à qual acrescento sempre “… de borla.”. A comunicação dessa empresa tinha sido feita gratuitamente “se a empresa ainda não abriu, como é que posso pagar?” pelo designer, que ao fim de alguns meses, lá foi pago – penso que pelo tom usado, a título de favor. É assim o mercado.

  3. […] I believe this stubbornness on exhibitions and specific projects that aim towards an award are not the answer for promoting Portuguese design or any design, for that matter. But in Portugal, it can even work against us! This is a country where some still consider design as art. Or worse, an adjective. […]

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