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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Culpa é um escalão de IRS

Dentro do contexto da crise actual, a palavra Austeridade deveria ser sempre escrita com A grande, porque não significa apenas poupar, levar uma vida mais simples, mas fazê-lo de certa maneira: cortar nas coisas públicas, não apenas na despesa mas em certo tipo de despesa (hospitais, escolas, universidades, cultura); cortar nos salários de quem trabalha para outras pessoas, sobretudo para o Estado; privatizar serviços; subsidiar essa privatização; etc. A Austeridade não é portanto um mero sinónimo de poupança mas a designação de um programa complexo e coerente.

Por essa razão, muita gente que se manifesta contra a Austeridade não é contra a poupança ou contra viver de acordo com as suas possibilidades, mas contra a injustiça do programa. Para essas pessoas, é inevitável que haja sacrifícios, o problema é a sua distribuição.

Esta crise económica tem sido discutida recorrentemente em termos morais, de obrigar os culpados a pagar  pelos seus pecados. Assim, a distribuição proposta pelo governo não propõe apenas sacrifícios mas associa-os a uma culpa. Portas, por exemplo, acredita que se deve penalizar mais a função pública porque de algum modo é culpada da crise – o que não é verdade: esta crise é o resultado de vários defeitos de fabrico da moeda comum europeia postos a descoberto por uma crise financeira.

E decidir trabalhar para outra pessoa não é um defeito moral, não é falta de ambição, não é optar pela mediocridade. Numa sociedade justa, não deveria haver mais mérito em fundar uma empresa do que em trabalhar para ela.

Por tudo isto, agarrar em 7% dos salários, dando-os directamente às empresas foi visto como fundamentalmente injusto e até imoral. Foi uma (má) decisão económica tomada num contexto em que se habituou  as pessoas a justificar decisões económicas em termos morais.

E quase deixa de fora (mais uma vez) o sector financeiro, onde começou e continua toda esta crise. Uma das medidas aprovadas por este governo é precisamente aumentar as taxas aplicadas às mais-valias bolsistas e aos lucros dos accionistas de 25 para 26,5%.

Um aumento de 1,5%, a ser feito no prazo de dois anos.

É pouco, muito pouco.* E calculo que sejam dois anos a contar para a frente e não para para trás, como aconteceu com algumas das medidas de corte aplicadas à função pública. Fica a ideia que estão à espera que se calhar a crise até se resolve até lá, e entretanto nem vai ser preciso pô-la em prática.

É tão óbvio que nem devia ser preciso escrevê-lo: compensa mais jogar na bolsa do que trabalhar, receber um salário, sobretudo no que diz respeito aos impostos, mas também nos valores chamados morais. Não devia ser assim.

–––

*E era possível fazer muito mais. No Público de hoje, por exemplo, argumenta-se que: “Se o Governo insiste em reduzir a taxa social única (TSU) das empresas de 23,75 para 18%, pode fazê-lo sem agravar a TSU dos trabalhadores. Bastaria tributar em 0,3% o património financeiro detido em Portugal (sem depósitos bancários), uma taxa semelhante à taxa mínima de IMI paga pelos donos de imóveis e que daria a receita de 2500 milhões de euros que o Governo espera com a polémica medida.” E era possível também aumentar os impostos sobre os nossos 1%, os nossos super-ricos.)

 

 

 

 

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

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