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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Opinião

Apercebi-me ao ler o resumo de um ciclo de conferências de Augusto M. Seabra na Culturgest sobre História e Teoria da Crítica, que discordo da definição dada sobre crítica e sobre a definição dada sobre opinião. Nem sequer é uma discordância com Seabra em particular mas com posições bastante comuns de crítica, que me parecem pouco adequadas ao modo como esta é praticada hoje.

Por exemplo, não consigo pensar na crítica como algo que vai além da mera opinião – “não é apenas emitir uma opinião, mas fundamentá-la na apreciação da arte e das obras, e na sua explanação pública”, como defende Seabra.

Para mim a crítica de arte (ou do design), quando é praticada em público, é um parente próximo das colunas de opinião política ou até desportiva: a propósito de um determinado assunto, procura-se convencer um público, usando argumentos, melhores ou piores. Uma crítica não deixa de ser uma opinião quando é melhor fundamentada, apenas é uma opinião melhor fundamentada.

Porquê este cuidado em manter as coisas ao nível estrito da opinião? Simplesmente para assegurar que, por princípio, todas as opiniões têm a mesma oportunidade de ser levadas a sério. Só através da sua apresentação a debate público é que se percebe se são ou não convincentes. É o princípio base do debate democrático.

Esta distinção, que pode parecer ténue, torna-se importante quando a crítica perde os seus poleiros institucionais em Portugal: há cada vez menos espaço dedicado a isso nos jornais, nas revistas ou na televisão. Já não é praticada dentro de esquemas editoriais – que não eram apenas modos de organizar o trabalho em termos práticos, mas também em termos deontológicos, separando a reportagem da opinião política, da crítica, da entrevista, dando-lhes diferentes relações éticas entre a recolha de factos e a sua apresentação e comentário.

Quando o acesso a um debate público se alarga, através da internet, a crítica multiplica-se e multiplica também os seus critérios. Já não tem tanta autoridade como dantes, o que talvez leve a uma crise da crítica enquanto legitimação, mas tem a sua contrapartida na expansão da crítica enquanto opinião.

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Filed under: Crítica, Cultura

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