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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Identidade

Desde há meio século, quando alguns aficcionados tentaram importar o conceito para Portugal, que o design tenta descobrir qual será a sua identidade por estas bandas. Há, é claro, muitas respostas possíveis, mas as mais óbvias têm sido institucionais: criar estruturas que ensinem, investiguem e legitimem o design – escolas, museus, leis, publicações –, algumas com mais sucesso do que outras. Sempre tentando, enquanto se consolidava a posição por aqui, ir acompanhando o que se fazia lá por fora.

Nunca foi uma identidade estável ou satisfatória, mas a presente crise tornou-a ainda mais estridente. Em alturas como esta, não basta invocar a autoridade; é preciso demonstrá-la, seja pela força, seja pela argumentação. Não basta declarar um direito; é preciso justificá-lo. As instituições, desde o Governo à economia, à cultura e ao design, precisam de levar outra vez a sério aquele ritual da discussão pública, para o qual estão tão mal preparadas.

No caso do design, a obsessão política e social da última década era bem intencionada, mas derreteu perante a crise como um gelado ao sol. A política do design era, acima de tudo, um nicho de mercado. A prova disso era o facto de ser orientada para causas que lhe eram exteriores, ignorando as contradições cada vez maiores do próprio design: trabalhos pagos a peso de ouro produzidos por estagiários a trabalhar de borla, por exemplo. Foi sobretudo um derivado da privatização da caridade, um subproduto da privatização do próprio Estado, através do qual se tentava resolver os problemas do mundo através do empreendedorismo. Acabando-se o dinheiro, acabou-se a caridade privada.

A crise revelou que os designers não pairam acima da sociedade, mas fazem parte dela, quer queiram quer não. São tão ou mais precários, tão ou mais desiguais que tudo o resto. Para o melhor ou para o pior encontraram uma identidade pública mais visível do que nunca, representando o jovem qualificado, o empreendedor que o subemprega, o novo emigrante, etc.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

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