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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Riqueza Envergonhada

Na semana passada, dizia-se num jornal que a pobreza envergonhada está a desaparecer – não a pobreza, claro, apenas a vergonha de ser pobre. A antiga classe média já começa a pedir ajuda – comida, roupa – sem esconder a cara. Com tanta gente a sofrer há tanto tempo, a pobreza já se tornou uma identidade e não apenas um “mau momento”.

Não por coincidência, a riqueza envergonhada também desaparece. Nesta crise, se a pobreza não se disfarça, a riqueza ostenta-se. Os suplementos de fim-de-semana dos mesmos jornais onde se noticia e debate o empobrecimento da nossa sociedade são quase exclusivamente dedicados ao luxo. Não apenas ao consumo: ao luxo. É comum encontrar lá bicicletas que custam tanto como um automóvel usado, e mobiliário de autor que custaria um ano de salário a um funcionário público.

Em alguns casos, ostenta-se-se mesmo uma riqueza tão fabulosa que já não pode ser partilhada, mesmo que apenas em imagens: na sua entrevista ao Público, o homem mais rico de Portugal Alexandre Soares dos Santos foi fotografado num bosque por questões de segurança. Não por pudor, para dar um ar minimal ou modesto, repare-se. Por segurança.

Pouca gente usará estas revistas como um guia de consumo. Apenas as que têm dinheiro para tal. As outras usá-las-ão como um guia de valores, que indica qual a vida que vale a pena viver e qual é apenas um mau exemplo ou uma estatística (acho que não é preciso soletrar qual é qual neste momento).

O design divide-se entre esta nova pobreza e esta nova riqueza. Por um lado, o jovem designer tornou-se um símbolo do novo trabalho precário, por outro muito desse trabalho precário é ocupado a produzir produtos de luxo que, nesta altura, até parecem ser uma boa saída para a crise. Exportam bem, sejam eles calçado, móveis ou arquitectura. Mesmo no turismo, essa forma discreta de exportação, o artigo de luxo impera.

Assim, se o país empobrece para se tornar competitivo, o mercado onde compete é o do luxo. Sob o ponto de vista da economia, nada a contestar: se há procura, haverá sempre alguém a ganhar dinheiro com isso. Sob o ponto de vista da moralidade e da justiça, as coisas não podem ser assim tão simples.

Não se pode pedir a um país que empobreça (porque viveu acima das suas possibilidades) enquanto se celebra o consumo de luxo. Não se pode atirar o fardo da crise para cima das classes mais baixas, obrigando-as a abdicarem de partes substanciais dos seus vencimentos enquanto pagam cada vez mais impostos, e dizer que não é produtivo taxar quem pode realmente consumir estes produtos. Se há dinheiro para pagar design a peso de ouro, haverá sem dúvida dinheiro para pagar mais impostos.

E já não é particularmente convincente argumentar que estes produtos, a sua produção ou o seu consumo, criam emprego. É tão convincente como argumentar que a melhor maneira de ajudar a sociedade é ajudar quem mais tem e esperar que o dinheiro desça. Não está a funcionar. E se queremos realmente outro sistema, teremos que começar  a celebrar outros valores que não estes. Já era altura de aparecer uma riqueza envergonhada, não porque tenha medo de ser assaltada, mas porque seria bom vivermos numa sociedade que celebra a igualdade.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. Muito obrigada por escrever tão bem aquilo que eu penso sempre que leio a Revista do Expresso. Ultimamente parece que me faltam as palavras, mas você achou-as na perfeição. Bem haja.

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