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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fábulas

Parece que as fábulas estão na moda. Tentemos uma nova. Vamos chamar-lhe “O Bom Aluno”. Pelo nome não parece muito inovadora. Até já ouvimos qualquer coisa do género. Mas se calhar é uma fábula diferente com o mesmo nome. Ou então é uma reinterpretação, como aquelas onde a Bela é o Monstro, a Cigarra é a boa da fita ou os Porquinhos tramaram o pobre do Lobo – vamos dar o benefício da dúvida.

Era uma vez uma escola, uma turma onde a maioria dos alunos já tinham passado de ano. O exame tinha sido difícil mas, melhor ou pior, tinham conseguido. Todos menos dois. Como exame de recurso, o Professor propôs-lhes um projecto. Em algumas versões da história, tratava-se de semear e cuidar de uma planta, seguindo rigorosamente instruções muito claras, cujo cumprimento e sucesso eram vigiados regularmente.

O primeiro aluno a tentar depressa reparou que, seguindo as instruções e usando os recursos emprestados pela escola, a sua planta não só não crescia como visivelmente ia morrendo. Tentou em vão convencer o Professor que a experiência estava mal concebida. Tentou trazer às escondidas nutrientes e água, mas foi apanhado e posto de castigo.

O segundo aluno viu os maus resultados do outro e tentou uma estratégia diferente. Seguiu escrupulosamente as instruções e interpretando o objectivo do exame como uma tentativa de encontrar maneiras económicas de fazer crescer uma planta, foi testando maneiras alternativas de o fazer, tirando ainda mais água e luz à planta do que as instruções exigiam. O Professor mostrou-se satisfeito, mas a planta ia morrendo.

O fim da história não é claro. Nem muito pertinente, neste caso. Não é o meu objectivo demonstrar que as fábulas podem ser úteis para modelar dilemas éticos, mas que podem ser aplicadas a mais do que uma situação. Não a contei para falar sobre a crise actual, mas de outras crises mais discretas que a precederam e a acompanham.

Às vezes as fábulas são muito literais. Quando se fala de um aluno, pode-se estar mesmo a falar de um aluno. Por exemplo, o ensino superior público também foi alvo de um destes exames onde o objectivo é fazer crescer qualquer coisa sem lhe dar meios para isso. E foi conseguindo. Foi um Bom Aluno. Como recompensa do seu empenho, ainda lhe cortaram mais meios. E foi ainda conseguindo. E os seus meios ainda foram mais cortados.

Há quem pense que o ensino superior público não serve para grande coisa, que não faz a investigação e desenvolvimento que devia. Muito claramente não é verdade: tem sido uma excelente cobaia de políticas de austeridade. Desde há décadas.

Cada fábula pode ter mais do que uma moral. A minha interpretação desta é que há uma diferença entre dar graxa e realmente aprender qualquer coisa. No mínimo dos mínimos que a cartilha está errada. Mas para isso seria preciso um pouco de sentido crítico.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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