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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Últimos Dias

Entre todas as desgraças diárias que nos mandam os jornais começa a ser difícil escolher uma, a que seja mais urgente comentar. Esta semana por exemplo, muitos opinadores, com melhores ou piores razões, ponderaram o risco de uma saída do Euro.

Daniel Oliveira fez um bom comentário no Expresso. José Manuel Fernandes e Domingos Ferreira fizeram-no no Público de hoje, em páginas consecutivas, mas demonstrando que se pode defender a mesma premissa de modos radicalmente distintos.*

Enquanto Fernandes diz que acabaremos por sair do Euro porque não conseguiremos ser suficientemente “alemães” – no fundo o argumento moral: que não merecemos estar no Euro –, Ferreira escreve um artigo mais conciso, resumindo bem a natureza macroeconomica desta crise, que não resulta apenas dos “pecados” portugueses mas de desequilíbrios, más estratégias, moralismo barato e oportunismo ao nível Europeu. Vale a pena ler.

É claro que muitas dessas más estratégias, moralismos baratos e oportunismos foram também aplicados ao nível local, resultando nas tais desgraças diárias que nos mandam os jornais.

Vai-se tornando óbvio que esta crise está a ser usada para privatizar apressadamente tudo e mais alguma coisa. Dantes, a imagem do Apocalipse era a do tresloucado barbudo a segurar um placa com o “Fim está próximo!”, agora é a de uma montra de loja a dizer “Últimos Dias!” 50, 60, 70 ou 80% de desconto. E no meio dos vestidos e das sapatilhas estão empresas públicas. Isto é o oportunismo.

O moralismo barato e as más estratégias não andam longe. Ontem, o Primeiro Ministro, por exemplo, manifestou a sua perplexidade com o nível dos argumentos usados na discussão da TSU, que julgava já ter sido ultrapassado. Ainda há gente por aí a falar de Capital, Trabalho e Exploração? Já não se tinha discutido isso tudo? Pelos vistos vai ser preciso discutir outra vez o papel das empresas na sociedade.

Pelo que me lembro da “discussão”, esse papel era serem a coisa mais fixe da sociedade. Aliás: qual “sociedade”? Já dizia a Thatcher nos 80 que não existia tal coisa. Mais vale inundar de dinheiro e isenção de impostos as empresas, e de certeza que escorre alguma coisa para o resto da maralha.

E, de resto, porque não se incentiva toda a gente a ser uma empresa de uma pessoa só — um empreendedor? Um desempregado e um precário tornam-se assim em mini-empresas competindo umas com as outras para fornecerem os seus serviços a empresas de maiores dimensões ao mais baixo preço. Perdão: com as condições mais competitivas. A própria noção de Trabalhador é substituída pela de Colaborador – bem mais alegre e, sobretudo, voluntária.

Um dos problemas desta treta toda é que assenta  numa eliminação e humilhação quase total da própria ideia de trabalho. Ainda é feito, claro, mas já não tem qualquer tipo de dignidade social, atingindo o ponto que se considera natural pagar para o fazer. Ou que o próprio governo tente pôr os trabalhadores a pagarem explicitamente o salário de um novo trabalhador (foi esse um dos argumentos usados).

Mas, se existem empresas, se essas empresas aceitam encomendas, se contraem empréstimos para financiarem as suas operações, se encontram financiamento na bolsa, alguém, algum dia,vai ter que fazer o trabalho. Caso contrário, alguém está nitidamente a viver acima dos meios (de produção) que tem. Não há empresas sem trabalhadores.  Tal como não há cigarras sem formigas. Ou vice versa. A vida não é uma fábula mas um eco-sistema.

Realmente era necessário voltar a ter essa discussão, mas duvido que o resultado agradasse ao Primeiro Ministro.

––

*E eu inventei a colecção de relíquias e penduricalhos do Euro.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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