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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Edição, Curadoria, Intimidade e Opinião

Ontem em Guimarães, o encontro Edição e(m) Curadoria valeu a pena. Gostei mesmo muito da parte da manhã, mais teórica e crítica, com uma exposição sobre a história da edição experimental portuguesa, desde Palla e Martins até E. M. Melo e Castro, com a possibilidade de folhear alguns desses livros que circulavam pela plateia.

Houve também uma nota muito interessante sobre o catálogo de arte como forma de moeda de troca, produzido não apenas para registar e arquivar um evento, mas também para objectivar hierarquias de organização e de financiamento – para representar não apenas quem produziu ou criou os objectos apresentados (no caso de um catálogo de arte) mas também as diferentes instituições envolvidas e o modo como se organizam entre si. É um assunto ao qual não resisto: o uso da estrutura do livro como mecanismo de representação de autoridade foi precisamente o tema da minha tese de doutoramento.

(Não estou a atribuir cada uma destas intervenções aos seus autores por não ter tomado grandes notas durante o dia.)

Na parte final da conversa, alguém falou da necessidade de distinguir muito bem entre editor e curador, ou entre editor e publisher, como se faz nos países anglo-saxónicos. Não, na verdade não é necessário. Robin Kinross, por exemplo, assume-se como um “editeur”, alguém que escreve, lê e prepara materiais para edição e também os publica e distribui, vendo vantagens nesta acumulação de funções. A justificação pode ser estética (mais liberdade de movimentos entre áreas), mas prefiro o argumento materialista: quando não há dinheiro – se não se pode pagar a toda a gente –, não vale a pena multiplicar as hierarquias. O dinheiro tende a suportar a hierarquia e a sua gestão deixando os escalões mais baixos a secar. Traduzindo: a gestão é paga enquanto o trabalho nem por isso.

Têm aparecido cada vez mais escritores-artistas-editores ou artistas-curadores, tendência à qual se tem respondido demasiadas vezes com uma discussão sobre a necessidade de distinguir bem as coisas, para evitar promiscuidades, preferindo que as pessoas se acabem por definir e especializar. Pessoalmente, preferia a noção de artista total (acumulando até escrita, produção de imagens e design) do que soluções hífenizadas (desde o artista-curador ao duplamente tracejado “designer-como-autor”).

Da parte da tarde mostraram-se projectos, às vezes pondo a audiência a participar, como no caso da dupla Sara e André que nos pôs a organizar um arquivo de citações por temas, numa espécie de trivial pursuit associativo e contra-relógio (muito divertido).

À medida que o dia avançava a minha atenção começou a dispersar. As cadeiras de madeira não ajudaram de todo. Parecia que estava sentado numa bancada de carpinteiro ou num monte de lenha e comecei a ir procurar pouso mais ergonómico ao bar.

Lá para o fim, gostei da apresentação sobre o blogue da Susana Pomba, e em especial do debate posterior. A certa altura, alguém disse que admirava a capacidade dela de  expôr assim a sua intimidade, ao que ela respondeu que aquilo não era a sua intimidade. Foi uma troca rápida e bem-humorada mas que levanta questões muito curiosas. No blogue, a Susana mostra uma selecção de fotografias de eventos e exposições que se escapam muitas vezes à cobertura dos jornais. Não é portanto apenas um arquivo mais amplo e acessível que o dos media tradicional mas também uma forma de opinião mais alargada e generosa sobre o que deve ou não ser registado.

É curioso que se considere isto como uma exposição de intimidade, em particular dentro do contexto das artes, onde é regular as pessoas exporem as suas vidas, as suas casas ou os seus corpos (logo a seguir houve uma performance simulando um combate de boxe com murros bastante reais). Acaba por ser uma boa reflexão sobre a nossa sociedade onde a intimidade é bastante mais exposta do que a opinião e a crítica – intimidade pública e opinião privada: o inverso seria talvez mais característico de uma democracia.

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Filed under: Arte, Autoria, blogs, Conferências, Crítica, Cultura, Design, Economia, Exposições, História, Política, Prontuário da Crise, Publicações, viagens

4 Responses

  1. Joāo Cid diz:

    Se bem me lembro houve qualquer coisa sobre edição na ultima revista da esad. Alguma coisa em comum com esta conferência?

  2. Não muita. Não se falou muito de edição experimental contemporânea, mas das ligações entre edição e curadoria.

  3. […] a propósito de Guimarães, um pormenor do qual não falei no texto anterior – porque ando a escrever uma peça maior sobre […]

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