The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Intimidade

A propósito da rapariga que abraçou o polícia e mais tarde posou para uma revista de mesa de cabeleireiro, servindo assim de pretexto para alguns lamentos desiludidos: aquilo é só uma imagem; demorou um instante a ser tirada; implicou uma decisão rápida de um fotógrafo; mas tudo isso não quer dizer que não signifique nada. Faz parte da natureza humana interpretar imagens, tirando conclusões sobre elas.

Como dizia Oscar Wilde: só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. O que, para Susan Sontag (que o cita), é um aviso sobre o excesso de interpretação. Não um apelo à censura, mas à consciência que um mesmo objecto, através da interpretação, pode ser reclamado para fins muito distintos: pode ser a favor ou contra; de direita ou esquerda.

Esta crise trouxe-nos mais exemplos que o da rapariga e do polícia: as imagens da carga policial do Chiado que foram usadas até à exaustão para demonstrar que foi provocada pela polícia ou por alguns manifestantes. O mesmo foi feito às imagens do toureiro que carregou sobre manifestantes anti-touradas.

Não é novidade nenhuma que uma imagem nunca nos diz, por si só, o suficiente. Queremos sempre saber mais, e a nossa primeira tentativa será talvez ouvir os protagonistas: a rapariga, o polícia – deixando o fotógrafo quase de fora, significativamente. Talvez eles tenham alguma autoridade para falar sobre o assunto (também se recorreu a especialistas, críticos e opinadores, mas não é a mesma coisa; podem até ter interesse, mas já só são testemunhos em segunda mão).

Naturalmente, o que disseram e fizeram desiludiu. A rapariga era uma artista visual que chumbou a Geometria Descritiva, e aproveitou a ocasião para aparecer numa revista como modelo; o polícia era só uma pessoa cuja profissão é ser polícia – estereótipo abraça estereótipo, resultando um cliché.

Mas se a coisa desilude, se até parece que aquilo apequena e desautoriza a dimensão política da manifestação é porque de facto o faz. Não por incompetência dos protagonistas mas talvez por incompetência da própria sociedade.

Já o tinha dito há uns textos atrás, mas neste momento lida-se melhor com a exposição da intimidade (que é incentivada, procurada e celebrada) do que com uma tímida manifestação espontânea de opinião pública, por mais pequena e difusa que seja. Não me espantava que o guarda costas do Primeiro Ministro que agrediu o jornalista ainda fosse parar à Casa dos Segredos. Juntamente com o polícia e a rapariga.

O mesmo se pode dizer daquela história do rapaz que pedia ajuda publicamente para encontrar uma rapariga com quem se tinha apaixonado durante a manifestação e que acabou por se revelar apenas uma campanha de marketing. O estratagema é mais uma vez capitalizar o nosso interesse sobre a vida intima de alguém durante um evento público, político, como se esse factor humano o tornasse mais caloroso e pessoal. Quando não é usado para mais nada que não corrompê-lo subtilmente.

Nem interessa muito se esta segunda história é uma fraude publicitária. Se fosse simplesmente uma dupla página do rapaz a posar numa praia enquanto diz o que lhe vai na alma, o resultado seria o mesmo: uma corrupção subtil de um evento público em nome de vender umas revistas ou uns champôs – uma privatização interesseira e um pouco estúpida que rói nas bordas de coisas que não compreende.

 

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Filed under: Crítica, Cultura, Fotografia, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. jorge sousa diz:

    fama e lucro acima de interesses maiores e mais sérios

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