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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Moralismo e economia

Não são a mesma coisa. E o mesmo se pode dizer da política e da economia. Embora a tendência seja misturar as coisas, com os resultados que se vê.

Aquilo que me atrai mais no que Paul Krugman escreve é o princípio que a economia não é o que ele chama uma “Morality Play” e que poderíamos traduzir (aos trambolhões) por uma fábula encenada com o propósito de moralizar. No fim de contas, que a economia não é um mecanismo automático que toma as decisões éticas e políticas por nós.

Entre os neo-liberais há um certo fascínio geek pelos grandes sistemas descentralizados que se organizam sozinhos contra-intuitivamente – sem intervenção central que não a do programador (claro). A ideia do mercado como uma ordem que nasce das interacções egoístas de pequenos agentes já não é apenas a reencenação da Mão Invisível de Adam Smith, mas uma aplicação política das teorias de sistemas emergentes, dos algoritmos genéticos, que devem muito a avanços conceptuais nas teorias da computação. Para quem programa sistemas deste género (eu já o fiz), há uma certa estética em encontrar as leis que os governam, que implica perceber como regras simples ao nível dos agentes individuais dão origem a efeitos muito distintos ao nível do sistema.

Lembro-me em particular de um exemplo onde se espalhavam “palhinhas” virtuais por um ecrã (pixels amarelos) e depois se largavam “térmitas” programadas (pixels vermelhos) com o comportamento simples de agarrarem numa palha e largarem-na junto de outra. Não interessava se a palha já estava num monte ou não, apenas agarravam na palha e largavam-na junto de outra. Ao fim de algum tempo, não muito, as palhas estavam todas reunidas num grande monte. Era contra-intuitivo (os montes faziam-se e desfaziam-se) mas a longo prazo funcionava. Os montes maiores tendiam a aumentar e os mais pequenos a desaparecer, acabando por ficar só um. As idas e as vindas das térmitas e as pulsações dos montes de palha eram hipnóticos, pareciam quase vivos.

É esse fascínio que habita muitos dos modelos económicos que nos são aplicados: uma fé extrema na descentralização que não é muito diferente da fé extrema na centralização que acabou por destruir os sistemas de esquerda. No fundo, trata-se de uma espécie de Anarquia de direita, onde a igualdade da pessoa humana é substituída – ou melhor: convertida – em moeda, tal como tudo o resto.

Trata-se enfim de tentar cumprir através da economia o velho sonho de uma língua universal que não serve apenas para comunicar mas também para resolver de uma vez por todas a ética, a justiça e tudo o resto. E, como todos os projectos que a antecederam, já falhou.

Este texto (que já vai longo) servia apenas para comentar um outro, de Pedro Lains, que muito justamente tenta dar uma ideia realista da situação portuguesa, isolando a economia da justiça. Aí se percebe que muito do que nos é agora apresentado como um pecado económico – a dívida, os direitos – não era pecado nenhum, apenas o percurso normal e expectável de uma sociedade como a nossa. Muito dele feito em nome da redução da nossa desigualdade.

Curiosamente, separando moral e economia percebe-se bem que estes modelos económicos que nos são impostos implicam que a igualdade é de certo modo imoral. Não é um acidente, por exemplo, que este governo tenha, não um conceito de igualdade, mas uma autêntica panóplia de sucedâneos: equidade, equivalência que se opõem ao que o Primeiro Ministro chama a “Igualdade Cega”.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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