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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pela Cultura

Esta semana vai haver manifestações pela Cultura. Nem digo contra a troika porque, pelos vistos, o FMI mudou de ideias, Barroso diz que não é nada com ele, e não sobra outra coisa que não o Governo. Portanto, que se lixe o Governo, que se lixe a Austeridade. Que se lixe a política cultural desta gente. Que não existe, porque é feita caso a caso.

Mas vai-se percebendo um padrão: aqui junta-se arquitectura de renome e intervenções artísticas em larga escala como tentativa de equilibrar a destruição patrimonial e ecológica causada por umas tantas barragens; ali, promove-se a trilogia luxo-fado-gastronomia; acolá, usam-se artistas/empresários para produzir instalações gigantes a partir de objectos sofisticados produzidos através da montagem modular de objectos do quotidiano (se possível feitos pelas nossas indústrias).

Há-de haver sempre público para isto, pela simples razão que é promovido (é uma tautologia). A questão é se a decisão de apoiar este género de cultura é justa. Na minha opinião, apoiar uma arte que promove muito visivelmente o luxo e o excesso numa larga escala é uma alarvidade.

Sempre houve uma tendência por aqui para reunir os magros recursos dedicados à cultura, concentrando-os em instituições com a maior escala possível, e sempre achei isso uma má ideia. As grandes instituições e eventos permitem mostrar rapidamente que Portugal está no mapa, mas não fazem muito pela arte local. Na pior das hipóteses agarram em material já feito em outros sítios e reencenam-no aqui. Não há mal nenhum nisso, mas não devia ser uma prioridade. Talvez fosse, há uns anos, mas agora é bastante fácil e barato viajar. Trazer coisas é importante, mas deveria ser mais importante perceber o que se anda a fazer por cá. No campo das artes e do design, que conheço melhor, sempre foi esse o problema.

Na época das vacas um niquinho mais gordas, queixei-me bastante da falta de uma política coerente para as artes locais por  parte de Serralves, por exemplo. Nem tanto de apoios, porque eles acabavam por ser dados, mas da existência de uma estratégia para isso. Ficava quase sempre a sensação que certa arte nacional só era convocada quando era preciso mostrar a cor local ou quando não havia dinheiro para mais.

Mais uma vez, não há problema nenhum na existência de grandes instituições de vocação internacional. Só não devia ser uma prioridade. Se, como dizia João Fernandes na altura, a solução era a criação de instituições de média e pequena dimensão, a prioridade devia ter sido essa.

É óbvio que, em termos mediáticos, não compensa ter instituições de pequenas dimensões, porque simplesmente desaparecem: a simples cobertura em jornais, revistas e na televisão é mínima – pode ser lida e relida, vista e revista, com facilidade e vagar em menos de uma hora. Só ao nível da imprensa, a crítica resume-se a umas quatro colunas (ou menos) por semana, distribuídas pelo Expresso e pelo Público. Dá uns duzentos textos por ano. O que não é nada.

Muitos desses textos cobrem recorrentemente as mesmas instituições, as mesmas galerias, os mesmos géneros, os mesmos artistas e as mesmas exposições. Pela sua escassez, formam um mosaico simplório de um universo bem mais interessante, mas que é difícil conhecer. Quase não há meios alternativos para isso. Tanto para promover como para registar. Neste ambiente rarefeito, um blogue como o da Susana Pomba que regista eventos fotograficamente, sem comentário que não isso, é mais informativo que muita cobertura crítica, pelo simples facto que revela existências que de outro modo se perderiam, sobrando ao público uma folha de sala ou um catálogo.

Os jornais e a televisão perderam o que foi talvez a sua última oportunidade de agarrarem um público, produzindo um discurso interessado e interessante, dando uma cobertura informada e complexa às artes (já nem digo uma crítica). Isso ate era possível, porque vai sendo feito em outros países. Neste momento, já se vai vendo o que interessa na internet, nos blogues, ou no facebook. É mais barato e rápido. A cobertura dos jornais de referência, pela sua escassez, serve apenas para aumentar o valor de mercado das pessoas e locais que são seleccionados para lá aparecerem.

O resto do discurso sobre as artes acaba por se concentrar na academia (papers, mestrados e doutoramentos) e no comissariado (folhas de sala, catálogos e nas próprias exposições). Não chega para manter uma esfera pública porque só raramente ultrapassa o âmbito efémero e local.

Toda esta digressão para dizer que a cultura, precisa de outras prioridades, de outras políticas. Precisa também de divulgação. Precisa de perceber que o contexto mudou. Que precisa de dinheiro e que precisa de apoio (às vezes são duas coisas distintas), mas que precisa de repensar ferozmente as suas estratégias institucionais, críticas, académicas e mediáticas.

(E já nem falo do problema cada vez maior de reservar o pouco dinheiro ao simples funcionamento das instituições e eventos, atirando os custos e os riscos para os próprios artistas – um esquema que reproduz na perfeição estratégias usadas pelo mercado em geral, não apenas os das artes. A autonomia do artista, neste momento, arrisca-se a ser apenas uma instância da do trabalhador tornado empresária, via empreendorismo: um eufemismo para precariedade.)

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Filed under: Arquitectura, Arte, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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