The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uns sem legendas, a maioria sem filmes

Esta semana saiu uma notícia que a Cinemateca por problemas orçamentais ia começar a cortar nas legendas. Uns tempos antes tinha-se anunciado que o número de sessões iria diminuir. É grave.

Desde que vou mais a Lisboa que só consegui ir lá ver um filme. Tentei várias vezes mas a sala está sempre esgotada. À terceira tentativa falhada, enquanto tomava café no bar (fraco consolo), já brincava que a cinemateca era só uma fachada, um embuste. Não havia sala de cinema nenhuma. Apenas uma conspiração lisboeta para vender cafés a pacóvios como eu. A Cinemateca, de Franz Kafka. Mas não havia conspiração nenhuma: apenas a possibilidade de ver a história do cinema ao vivo por tuta e meia. É grave que se ponha isto em perigo.

Mas confesso que estas duas notícias me deixam em conflito. Se em Lisboa faltam legendas, no resto do país falta tudo. Se eu quiser ir ao cinema no Porto, ou vejo algumas das estreias da semana, ou (que remédio) fico em casa a ver qualquer coisa no computador. Quando cheguei ao Porto, não era assim: havia uma dezena ou mais de salas, a mostrarem todo o género de filmes recentes, reposições ou ciclos. Mesmo em Vila Real, não era raro ver um ciclo de cinema.

Agora, não há nada. Perdi o hábito. O cinema já não é algo que eu saia de casa para ver. Desapareceu o público que havia para ele e agora só tenho uma vaga nostalgia de todo o ritual. Não sei se será possível reconstruir esse público.

Assim, quando ouço que na Cinemateca já não há legendas ou cortaram uma sessão sinto um duplo aperto. Por um lado, sinto esses cortes como uma ameaça que é preciso combater. Por outro, lembram-me de tudo o que desapareceu em outros sítios, desiludindo a devoção de muita gente. Matando a memória do cinema.

Preciso de resistir um pouco à tentação e ao preconceito de não defender a Cinemateca, porque ela durante muito tempo foi uma coisa mais Lisboeta do que Portuguesa, quase sem se dar conta disso (lembro-me da resistência que houve a abrir um pólo no Porto, por exemplo, argumentando que o país era demasiado pequeno para isso, embora o mesmo argumento defendesse com alguma contradição que não era pequeno o suficiente para que o espólio pudesse circular por lá).

Gosto de Lisboa, aprecio e estou disposto a defender toda a complexidade da sua vida cultural, mas seria bom que se aprendesse algumas coisas com esta crise toda. Uma delas: que é difícil defender a cultura se boa parte do país tem tão pouco contacto directo e quotidiano com ela. Da mesma forma que se torna difícil acreditar num governo desligado da sociedade, isolado nas suas rotinas  e só contactando com a população em ocasiões formais, também se torna difícil defender a cultura quando ela tem os mesmos tiques e hábitos.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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