The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Arte do Protesto

Ontem, no Porto, confesso que a manifestação não me emocionou muito, excepto por uma vaga desilusão. Não havia muita gente. Nem andou perto do 15 de Setembro. Apenas umas centenas de pessoas. E o formato de concerto focava demasiado a audiência nas bandas, nas músicas e nas mensagens que iam dirigindo de quando em quando à plateia, menos na própria multidão e os assuntos que as traziam ali. A música encorajava a audição passiva. Isolava as pessoas mais do que as juntava. Às vezes não é (e não foi) assim – quando as músicas são conhecidas e funcionam como hinos que trazem toda a gente para a mesma comunidade, mas ontem isso não chegou a acontecer de modo sustentado.

Mas não quero fazer aqui uma crítica de concerto, porque só superficialmente aquilo foi um. No meu caso, funcionou nas ocasiões em que virei as costas ao palco para falar com outras pessoas. Para ver cartazes e ler palavras de ordem. Algumas apelavam a que se largasse o Facebook e se viesse para a rua.

(E é uma má escolha: pode-se estar na rua e no Facebook. Deve-se protestar por todos os meios, usando-os o mais possível, da maneira mais criativa possível. Imaginem a Primavera Árabe sem Twitter. O Occupy Wall Street sem smartphones. Não há qualquer pureza ou honestidade inerentes em fazer corpo presente a bater duas panelas ou a levantar um cartaz. É apenas uma possibilidade no meio de outras tantas, que nem precisam sequer de ser usadas uma de cada vez. Não se excluem entre si.)

Penso, que no fim de contas, a situação pedia mais. Sobretudo naquele sítio em particular, à sombra de um grande banco modernista e de um teatro público dado a privados durante anos (nem sei qual é a situação do Rivoli agora). Pedia mais estratégia, e um pouco mais de participação. Como nos grandes movimentos de multidão dos Aliados a 15 de Setembro, ou o imenso coro do “Acordai” que pediam a participação de todos, que a acolhiam e multiplicavam como se fosse uma só.

Falou-se muito nos últimos anos de arte pública e de artes performativas. De trazer a audiência para dentro do evento, e seriam talvez essas estratégia que se tornou urgente experimentar neste contexto (até para ver se realmente funcionam). Coisas simples, como o coro ou o “Microfone Humano”, um modo de amplificação que permite a uma audiência participar democraticamente de um discurso: o orador fala frase a frase que as pessoas à sua volta vão repetindo, transmitindo-o como uma onda. Se alguém na audiência não concorda, pode ficar em silêncio, “votando” na sua transmissão.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

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