The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Bolsa é a Vida

Fiz parte do meu doutoramento com uma bolsa parcial do FCT, que me deu durante algum tempo 250 euros mensais para além do meu salário, me pagou as propinas e me deu finalmente um subsídio generoso para a impressão da tese de 750 euros (que por burocracias várias, não relacionadas apenas com o FCT só me chegou um ano e meio depois de a ter impresso). Enquanto recebi a mensalidade, ela foi um alívio financeiro considerável.

Agora, para quem seja bolseiro, as condições são muito diferentes. Aliás, parece que mudam todas as semanas. Um professor que concorresse há cerca de um ano só podia receber a bolsa se o seu horário não excedesse as quatro horas semanais. Se esse professor era pago à hora isso significava abdicar de boa parte do seu salário. E tinha que o fazer para poder começar a receber a bolsa. O problema é que a bolsa podia demorar quase um semestre a chegar. Pagando os meses em atraso, quando finalmente chegava, mas deixando o bolseiro a secar, sem outros meios de rendimento autorizados que não as quatro horas.

No começo deste ano lectivo, as regras mudam de novo e afinal um bolseiro só pode dar aulas a mestrados e doutoramentos e não licenciaturas. Revelando-se isso numa altura em que as contratações e os horários já estavam feitos.

Anteontem, aparece outra notícia no Público dizendo que o FCT não anda a renovar bolsas porque, de acordo com a sua interpretação do novo regulamento, um bolseiro não pode dar aulas em instituições públicas. Ou seja, só são dadas bolsas a professores que estejam a prosseguir carreira no ensino privado.

Fica a sensação que é fixe subsidiar a investigação e as carreiras no privado enquanto o público é, mais uma vez, um alvo a abater.

No meio destas trocas e baldrocas, dirão alguns: então porque não pedem esses professores dispensa? Porque não deixam de dar aulas e ficam a viver “generosamente” à custa do Estado durante a duração da bolsa? Porque, em muitos casos, nada garante que tenham um emprego quando voltarem. São contratados a prazo e à hora, e se estão a tirar uma pós-graduação é porque a lei obriga que o façam pelo privilégio de o continuarem a ser.[1]

E o que podem estas pessoas fazer. Abandonar a bolsa, que muitas vezes lhes paga mais do que recebem a dar aulas? Abandonar as aulas e chegado o fim da bolsa, irem provavelmente para o desemprego? Darem aulas gratuitamente, o que já tem acontecido em algumas instituições? Fazer greve? A quê? À investigação? Às quatro horas?


[1] E, em qualquer caso, mesmo que tenham contratos menos precários, já nem sequer vale a pena fazer uma pós-graduação, se for pelo acréscimo de salário, porque os aumentos estão congelados: recebe-se exactamente o mesmo depois de subir de categoria. Ou seja, quem faça uma pós-graduação, com ou sem bolsa, investe cada vez mais tempo, dinheiro (seu ou do Estado) e sanidade mental apenas para manter o emprego. Correr ao dobro da velocidade só para ficar no mesmo sítio.

Filed under: Economia, Ensino, Política, Prontuário da Crise

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: