The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Unir os pontos

Depois de ler o artigo no Ípsilon sobre o Doc Lisboa, que apostou numa cobertura documental, quase em directo da crise, confirmo a ideia que, dentro da cultura, a resposta mais orgânica e dura da situação tem sido a do cinema. Por comparação, o resto das artes são muito menos vocais, silenciosas até, tirando uma ou outra voz isolada (Siza com a sua boca sobre vivermos numa ditadura ou Maria Teresa Horta).

Se em todas as artes se tem falado mais de política, em obras, textos ou livros, o uso de ocasiões oficiais para protestar, aquelas em que o regime até precisa de uns artistas para ficar bem na foto, tem acontecido sobretudo no cinema. Nas artes plásticas, o silêncio não surpreende, porque o artista só aparece com algum protagonismo quando lhe fazem uma exposição retrospectiva, para a qual, às vezes, nem precisa de estar particularmente vivo.

O protagonismo vai sobretudo para a figura do comissário (seja ele independente, ou associado a alguma instituição como director ou funcionário), que encarna uma viragem muito definida das artes para o mundo da gestão (neste caso, de espaços, de artistas e de obras).

É aqui que reside o poder, e seria de esperar duas coisas: que os comissários assumissem uma postura mais pública e crítica em relação à situação actual no que diz respeito à cultura; que os artistas assumissem uma postura mais crítica em relação ao comissariado, tendo em conta que ele funciona como um interface entre a política, a economia, o dinheiro e os próprios artistas.

Se estamos numa crise em que o trabalho é desvalorizado até ao ponto de se esperar que o trabalhador o pague, ficando o lucro limitado à gestão e à organização do trabalho, devia ser óbvio o paralelismo deste esquema com o de artistas que pagam para participar em eventos onde o dinheiro tende a só chegar para a gestão e organização.

Dizendo a coisa de outro modo, talvez mais claro, deveria pensar-se mais seriamente sobre as implicações políticas da viragem curatorial das artes, e em particular na viabilidade deste modelo em sítios onde não há muito simplesmente dinheiro.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. […] uns textos atrás, falei da urgência de uma atitude mais interventiva dos curadores em relação à maneira como a […]

  2. […] que é activada a produção cultural. Se o comissário não toma uma posição política e ética não adianta muito que os artistas a tomem. Aliás, o maior receio é que a forma como a cultura se organiza hoje em dia, em torno do […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: