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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ser Designer

Mais do que uma vez, tenho visto designers de formação desiludidos com o design. Não os alunos maus ou mais-ou-menos, mas os melhores. A desilusão, parece-me, tem a ver com a insistência em ensinar as pessoas a serem designers – em transmitir não apenas uma competência técnica e formal, mas uma identidade.

Como em outras áreas, ser designer não é apenas saber escolher uma fonte ou imprimir um cartaz mas também um certo conjunto de gostos, de discursos, de acessórios (ferramentas, roupas), de referências históricas. Um bom designer deveria cumprir o figurino. Mas, para muita gente que tira o curso, esta identidade é uma desilusão.

As razões são várias, mas levam a que se abandone por completo a área, o que não é difícil, numa situação onde não é fácil encontrar aí emprego. Em tempos melhores, a identidade de designer seria vestida e assumida sem muita convicção, um pouco como as crianças que se mascaram de Dama Antiga ou de Cow Boy no Carnaval. Agora, não compensa sequer fazer de conta que é levada a sério.

Assim, esta crise é também uma de identidade, mas não individual. Colectiva. Sobre a qual a disciplina e as suas instituições deveriam reflectir criticamente.

Eu não vejo o curso como a aprendizagem de uma identidade. No ensino Inglês, se é comum ouvir gente a dizer que “é um designer”, também é comum ouvir “que foi treinado como designer”, implicando que a sua identidade não é, nem pretende ser, a de um designer, apenas que tem essas competências.

Ou seja, se a identidade é realmente uma das competências que se aprende na escola, ou se – pelo menos – ajuda a praticar essas competências, eu acredito que desenvolver essa identidade deve ser deixado ao aluno ou aluna.

Pensar o design como uma identidade leva inevitavelmente a que se acredite que certas formas de praticar o design são melhores do que outras, que certas carreiras são mais respeitáveis do  que outras. Ter uma atelier ou ser um profissional liberal é melhor que trabalhar numa firma de outra área, ou do que abrir um outro negócio; fazer logotipos é melhor do que fazer panfletos para um restaurante; etc.

Numa altura como esta (na verdade em todas), o design deveria ser menos uma especialização do que um conjunto de competências que poderiam ser úteis, mesmo quando não exercidas “como manda o figurino”, competências que não são apenas formais ou técnicas, mas discursivas, críticas, políticas ou sociais. Ou seja, estou a defender que o design ganha mais como Arte Liberal do que como Profissão Liberal.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

6 Responses

  1. anonimo diz:

    Só te sabes queixar, e fazer alguma coisa por isso? Que fazes tu pelo pais e pelo design?

  2. Pedro Gonçalves diz:

    Levo já alguns anos com uma ideia presente no meu dia-a-dia: Num momento de cataclismo social, algo que já levava alguns (talvez demasiados) anos à espera que acontecesse, qual seria a função de um designer gráfico no meio envolvente? Levado a extremos, se Portugal ou outra qualquer região do mundo vivesse num período de pós-guerra, onde não houvesse estrutura social, serviços básicos, onde reinasse a fome e a miséria… Qual seria a função que ocuparíamos em tal situação? Quem realmente nos necessitaria, com os nossos tiques requintados, a maioria completamente desorientados quando se nos põe um simples pc à frente, à procura da tecla ‘option’.

    O Design Gráfico é dependente de uma economia, de serviços, de empresas que o necessitem. Quanto mais saudável a economia, mais saudável o Design e mais frívolos e politicamente estéreis (e felizes?) os designers.

    É que, verdade seja dita, num mundo como esse – que não é muito diferente daquele que se avizinha pelo menos à “nossa” Europa – são bem mais úteis médicos voluntários, mecânicos, electricistas, enfim, gente que se sabe desenmerdar sem precisar de um Mac como ferramenta indispensável.

    Vendo a crise chegar rapidamente ao cluster do design onde vivia antes, fazendo com que os salários descessem e o custo de vida subisse, comecei a pensar onde poderia viver depois. Equacionei seriamente voltar a Portugal de vez e se tivesse ficado, certamente abandonaria a profissão que me deu de comer nos ultimos 8 anos. É simplesmente impossível para mim imaginar uma situação não precária no regresso. Preferiria fazer outra coisa que apesar de precária me deixasse mais satisfeito e me fizesse sentir mais útil numa sociedade necessitada de gente voluntariosa.

    É claro que nunca perderia a vontade de usar as minhas capacidades para gritar algo ao mundo, logicamente sem ganhar nada por isso. Mas será isso ser designer?

  3. Carlos diz:

    Quando alguém tem uma ideia de produto, contrata um designer para o projectar (seja um designer de equipamento, um “design engineer” ,etc), contrata um técnico da área para o produzir e depois recorre à sua vasta experiência em MSWord, PowerPoint ou Paintbrush para o promover porque não sabe que existe um designer de comunicação para o fazer (e se sabe, acha-o desnecessário porque também é capaz de produzir aquela imagem tão simples, limpa e eficaz das grandes marcas). A expressão “o design ganha mais como Arte Liberal do que como Profissão Liberal” é uma mentira que se tornou verdade pelo simples facto de o designer (de comunicação) continuar isolado de um mundo (é melhor dizer país) que não o conhece, não o valoriza e, naturalmente, não lhe atribui qualquer tarefa de relevo. Uma profissão tem um valor proporcional à utilidade que lhe é atribuída e, no geral, o design não tem valor porque é completamente desconhecido. Não identifico nenhum sinal de cultura e sabedoria na mente de quem gere processos de negócio para constatar a importância de ter um designer de comunicação a optimizar a fase final do seu negócio (a apresentação do seu produto ao cliente final). Depois ouvimos na imprensa as lamentações típicas: “temos óptimos profissionais e produtos mas não os vendemos…”

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