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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Identidades

Cada vez mais acredito que o desafio para as artes e para o design em Portugal será a criação de identidades que se oponham e (se possível) substituam as que nos trouxeram aqui, a este momento. Não será fácil, porque as ideologias e identidades que provocaram e mantêm esta crise não só estão bem vivas nas artes como em grande medida foram ensaiadas e aperfeiçoadas dentro delas, antes de serem largadas na população em geral – os estágios não remunerados; o recibo verde; a precariedade; o trabalhador como empresário a título individual, financiando a sua participação em empresas ou eventos de grande escala, que só asseguram visibilidade ou currículo; a valorização da gestão (curadoria, p. ex) acima do trabalho propriamente dito; etc.

A razão para isso é simples: a cultura dominante monumentaliza as relações de poder dentro de uma determinada sociedade, não apenas através das obras que produz, mas das estruturas institucionais e identidades que as produzem. E, funcionando a cultura como um ramo autónomo e portanto menos protegido das funções do Estado, é por necessidade bastante vulnerável a experiências de engenharia orçamental.

Assim, o desafio será produzir identidades ou instituições que, de algum modo, se escapem ou se oponham às dominantes. É uma boa altura para isso, tendo em conta que os olhos do mundo estão postos aqui, tanto para encontrar exemplos culturais de oposição e consciência crítica como para, do outro lado, encontrar maneiras que “não sejam ilícitas” de os desvalorizar, isolar e silenciar. Este é um campo de batalha adverso mas visível, exemplar.

Notem que nem sequer falo de criar essas identidades ou instituições. Em termos políticos e sociais, a originalidade é um empecilho. Não interessa tanto ir criando coisas novas, uma marca registrada, como ideias, imagens e sons que possam ser reutilizados e modificados em qualquer lugar. A originalidade só interessa se for eficaz, mas é um truque que só funciona (por definição) uma vez.

Essas identidades podem e devem também ser apropriadas. Não é uma contradição, por exemplo, que se organizem movimentos sociais usando redes sociais privadas como o Facebook ou iPhones e Macs. Se são a melhor ferramenta e se dão resultados, devem ser usados.

Do mesmo modo, o design modernista usado em grandes organizações, modular e racional, pensado para suportar grandes estruturas de decisão, deve ser reapropriado para fins públicos, para voltar a suportar essa grande estrutura de decisão que é a democracia.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

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