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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Dinheiro, Cultura e Democracia

Nas discussões que tenho ouvido sobre o assunto, há sempre uma ambiguidade quando se fala de cultura. Por um lado, diz-se que é aquilo que nos define como povo, país, época (mais termos ambíguos, que deixaremos passar). Por outro, é algo feito por profissionais ou pelo menos especialistas treinados para o efeito. Se a cultura é algo que nos define, então porque precisamos de alguém que a faça por nós? Se as telenovelas, os ranchos populares ou a gastronomia são cultura, para quê gastar dinheiro com isso? Não viveríamos melhor sem gastar dinheiro com cultura que aparentemente só serve para legitimar grandes interesses: o Governo, Bancos, a Europa, etc.?

Penso que a resposta (mais uma vez) reside no facto de querermos viver numa democracia (é sempre mais uma aspiração que uma realidade), onde é igualmente importante monumentalizar o poder. Neste caso, o poder reside (ou deveria residir) nas pessoas, na variedade dos seus interesses e identidades (quais as suas tradições, quais os seus problemas, o sítio onde vivem, aquilo que comem), tentando excluir e generalizar o menos possível. Celebrar a democracia é, tal como a própria democracia, um acto de representação. Não apenas das identidades e interesses existentes e reconhecidos, mas de identidades e interesses novos, que ainda só se vislumbram pelo canto do olho.

Dentro da área dos Estudos Culturais, faz-se uma oposição entre o conservadorismo de Mathew Arnold que acreditava que a Cultura era o que de melhor a sociedade produzia, a melhor arte, música e literatura, esquecendo tudo o resto, e posições mais abertas (como as de Stuart Hall ou Raymond Williams) que acreditam que a cultura inclui coisas mais quotidianas (banda desenhada, uma peça de roupa, o calão, etc.)

A diferença entre as duas tendências é política, como é evidente, porque representar a melhor cultura (Arnold) acabava por ser uma maneira de celebrar e conservar os interesses das classes mais altas, de quem detém o poder.

Mas fica a dúvida: se dermos dinheiro à cultura, não estamos a celebrar o poder? A resposta é simples: depende do que esse dinheiro paga. Numa democracia, o financiamento da cultura deve garantir que  o máximo de representação. Pensem na cultura como uma máquina fotográfica, cujo preço reflecte não apenas a definição das fotografias que tira mas também a sua capacidade para as armazenar. Quanto melhor a definição e a memória da cultura, melhor a representação democrática.

O financiamento da cultura deve garantir que não são representados apenas os interesses do maior número de pessoas, mas a maior variedade de interesses possível. Porquê? Porque a maioria pode estar errada. A abolição da escravatura, da pena de morte, ou o sufrágio universal, já foram ideias minoritárias, que agora se tornaram dominantes na nossa sociedade. É preciso dar oportunidade às ideias mais pequenas porque nos podem salvar ou pelo menos melhorar a vida.

A democracia funciona porque, por definição, não põe todos os ovos no mesmo cesto.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

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