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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Devido Valor.

É habitual dizer-se que ninguém dá o devido valor ao design. Que é uma actividade importante, essencial até, mas que pouca gente conhece. Se fosse reconhecida; se houvesse divulgação; se os designers se organizassem; se as escolas dessem mais formação; etc. Aí sim, seria dado o devido valor.

Mas que devido valor seria esse? Ter o mesmo respeito que é dado aos arquitectos, por exemplo? Na arquitectura, há tanto ou mais desemprego e trabalho precário que o design. E mesmo gente tão reconhecida como Souto Moura se queixa que não lhe é dado o devido valor: apesar dos prémios internacionais, ainda não o deixam fazer tudo o que lhe apetecer. Ainda vê projetos recusados, casas demolidas. Nada é sagrado, pelos vistos.

O mesmo respeito que é dado aos médicos, aos advogados, jornalistas ou políticos? Dentro do design português duvido que haja gente tão conhecida como um jogador de futebol, uma estrela de televisão ou um ministro, mas ainda assim alguns designers de moda, por exemplo, aparecem tanto ou mais nos jornais que muitos médicos ou advogados mais conhecidos. Mesmo no design gráfico, há alguns nomes que vão aparecendo e cuja fama ultrapassa as fronteiras da disciplina: Cayatte, Jorge Silva, Sebastião Rodrigues, por exemplo. Em suma: um advogado anónimo não é mais conhecido que um designer anónimo.

Se o devido valor for simplesmente a fama, isso é possível, mas dá algum trabalho e exige talento e sorte. Por definição, não está ao alcance de todos.

Se o devido valor for algo mais prosaico, receber um valor justo pelo nosso trabalho, sem pretensões à fama, isso é bastante mais complicado. Não apenas para um designer mas também para um arquitecto, um médico, um escritor ou até um canalizador. Vivemos numa sociedade onde o trabalho simplesmente não tem qualquer valor. Ou chega mesmo a ter um valor negativo, esperando-se o trabalhador pague por ele. É cada vez mais um valor devido do que um devido valor.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

4 Responses

  1. Carlos diz:

    Se virmos o design como Arte Liberal, o reconhecimento virá sob a forma de fama. Se for considerado como Profissão Liberal o reconhecimento será o dinheiro que se leva para casa ao fim do mês. É verdade que actualmente, em nenhuma das situações, vemos ser atribuído o tal devido valor. Para haver fama, tem de haver público em quantidade suficiente para que se atinja o devido valor. Para haver um ordenado suficiente tem de haver patrões que estejam dispostos a apostar no design dos seus produtos ou comunicação (para o interior ou exterior da empresa). Apesar de aparentemente distintos, ambas as situações têm raizes idênticas: mais uma vez, a falta de cultura, conhecimento e sabedoria da comunidade em que estamos inseridos.
    Aquela faceta tão conhecida dos portugueses, que nos enche de orgulho e é vista como grande factor de diferenciação face a outros povos (a capacidade de “desenrascar”) é a mesma que nos está a afundar. O design é uma das primeiras actividades em que este nosso talento comum chega para as necessidades de cada negócio…
    Como qualquer funcionário pode executar tarefas de design, o patrão não contrata um designer pois alguém lhe fará esse serviço (depois de executar as tarefas associadas à sua formação, nas horas extra não remuneradas), muito menos pagar um bom ordenado.
    Quanto à fama, como o design não diverte ninguém e não é propriamente associado a quem diverte, também está longe do reconhecimento público.

  2. Como diz que a recompensa do design como arte liberal será a fama, presumo que esteja a interpretar arte liberal como simplesmente arte. Artes Liberais são as artes que se consideram necessárias para que uma pessoa possa ser livre em sociedade. Nos velhos tempos seriam coisas como a lógica ou a retórica, essenciais a participar em discussões públicas, comerciais ou políticas. Defender o design como arte liberal é defender o ensino de competências ligadas à argumentação, à discussão e até gestão, juntamente com as competências técnicas e formais.

    Do mesmo modo, profissional liberal não significa apenas profissional, mas profissional que exerce as suas funções de um modo livre ou seja não assalariado, fora das estruturas das empresas que o contratam. Boa parte dos designers actuais são assalariados e não profissionais liberais.

    • Carlos diz:

      Sim, tem razão. Fiz uma interpretação incorrecta do seu texto.
      Considerei como profissional liberal alguém que é contratado para prestação de um serviço remunerado (com salário ou pagamento único). Considerei como artista liberal alguém que sobrevive através da venda da sua produção artística.
      Agradeço o seu esclarecimento. Acho que agora tem outro sentido para mim, não só este artigo, como outros editados anteriormente.

  3. MDF diz:

    O reconhecimento que deve ser uma preocupação não é nem a fama nem a devida remuneração (que é antes uma preocupação para qualquer trabalhador que não esteja a ser pago pelo seu trabalho), é o reconhecimento de um trabalho que exige formação adequada e prolongada, muita dedicação e que não é facilmente substituído por malabarismos de photoshop e semelhantes. É esperar que o designer deixe de ser ‘o que faz bonecada’ para passar a ser visto como alguém com sentido crítico, metódico e criativo ao mesmo tempo, e de rápida adaptação, em suma que passe a ser visto como um profissional que é uma mais valia para lá do seu trabalho ao computador.

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