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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Declínio e Queda do “Designer Como Deve Ser”

Muito do que seria considerado design noutros tempos automatizou-se, concentrou-se nos Macs, iPads e iPods. Muito do conhecimento e das ferramentas necessárias para o fazer está embutido nos programas e, se houver alguma dúvida, pode-se sempre fazer uma busca no Google. Pelo preço de um computador e de uma ligação à net, exerce-se o design de uma maneira que os velhos praticantes só sonhariam se consumissem, numa base diária, doses industriais de ficção científica – e (talvez) substâncias psicotrópicas. Ainda é preciso algum talento para navegar nesta abundância de recursos, claro, ou pelo menos um ouvido para o que está ou não na moda, mas, para isso, uns anos de escola dão o empurrão inicial, e um ambiente de trabalho estimulante e exigente fazem o resto.

Naturalmente, não é só o design que foi digitalizado desta forma. Adrian Shaughnessy dizia que a razão para cada vez mais designers fazerem música é simples: os ícones do photoshop são iguais aos dos programas de edição de som. Mas porquê parar aí? Também são iguais aos de edição de vídeo. E são parecidos com os do Word, do Excel e do Powerpoint.

E o que falta, então? A internet, talvez. A base da internet é o HTML, uma linguagem que descreve muito literalmente o aspecto de páginas, o cabeçalho, o corpo, a fonte. Não é muito diferente do que faz um programa como o inDesign – ou um velho tipógrafo, se por alguma razão a tinta da página respondesse ao contexto em que era lida. Daí que os designers se safem bem neste ambiente.

E o que faz um designer? Onde usa ele estascompetências? Na grande maioria das vezes, cria e cuida da identidade de empresas e instituições. Logótipos, folhetos, embalagens, brochuras, cartões de visita e facturas. Cria e mantém identidades, sublinho.

Agora, reparem: estamos numa época em que boa parte das empresas aqui em Portugal são pequenas, às vezes até individuais. E o que torna uma pessoa numa empresa?¹ O simples facto de muito do conhecimento necessário para formar uma empresa estar neste momento embutido nos Macs, iPods e iPads, ou nos programas, sobretudo as redes de distribuição e de comunicação.

Deveria ser óbvio que juntando empresas em grande medida virtuais a alguém que foi treinado para criar identidades de empresas e cuja actividade é uma forma de secretariado virtual, quase nem é preciso um cliente que queira formar uma empresa. Basta um designer. Daí que haja cada vez mais designers com galerias, lojas de bicicletas, pastelarias, bares de sushi, escolas de dança, hostels, quintas biológicas, o que quiserem. Neste momento, para uma empresa ser uma empresa basta quase parecê-lo. E ser um “designer como deve ser” já é só uma especialização no meio das outras todas.

Um curso de design, por melhor que seja, por mais que aponte os seus alunos para o “design como deve ser”, para trabalharem como freelancers ou numa firma de design, fazendo uma espécie de consultadoria externa para clientes, vai produzir cada vez mais destes designers-empresa, porque as circunstâncias assim o permitem – e portanto exigem (é a mesma coisa.)

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1 -Para além de todo o discurso de chacha do Governo e do matagal de gurus do empreendorismo. Uma coisa só se torna numa moda quando há condições materiais e culturais para isso; não é preciso alguém com um microfone de prender à orelha para o buzinar.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino

3 Responses

  1. O computador nao passou a ser o principal instrumento de trabalho apenas para o designer gráfico mas de praticamente toda a gente. Nas ultimas paginas de “Bulletins of the Serving Library #1”, Stuart Bailey e David Reinfurt propõem uma alternativa ao tradicional Bauhaus Foundation Course, desconstruindo a toolbox do photoshop em varios diferentes workshops. Em relaçao ao designer-empresa, penso que talvez nao seja tao facil criar “designers como deve ser” porque nao há tantas oportunidades para se ser um “designer como deve ser” ou porque se fazem demasiados designers(?). Se por um lado também tenho iniciado ‘projectos’ fora do campo de design gráfico, por outro lado também questiono-me sobre a sustentabilidade dessas empresas que falas.

    • Em muitos casos, os novos negócios gourmê são apenas uma maneira airosa de um designer ou um arquitecto abrirem uma mercearia, uma tasca ou uma loja de bibelôs sem se darem conta disso. Tudo negócios que são o grau zero de sustentabilidade, tal como já o eram há uns cem anos.

  2. Estava hoje a reler ‘Spirit of Independence’ de Rick Poynor sobre o design gráfico britânico e ao deparar-me com o que se segue, lembrei-me da primeira metade deste post.
    “More tellingly, Booth-Clibborn suggested that the situation was now so fluid in the communication field that the term ‘designer’ was perhaps no longer meaningful. In any event, the designer should be free, he argued, to use film or music, or to move into any are that the task of communication required. ‘The old labels have become unstuck – and we do not need new ones. A new type of creative man is wanted, one whose training gives him fluency in many skills and who knows no barriers.’ “

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