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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Até agora ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a chamada “viragem curatorial” das artes, tirando a evidência de ser uma moda total, absoluta: o termo aparece um pouco por todo o lado. Coisas que dantes eram organizadas, produzidas ou editadas são agora curadas ou comissariadas. Há até quem diga, famosamente, que o comissariado é a nova crítica.

A minha própria explicação é que as artes se dedicam agora a produzir e a monumentalizar uma identidade construída a partir de actos de gestão institucional, produzindo o seu próprio discurso a partir da organização do trabalho de terceiros, seja trabalho vivo, encomendado, seja trabalho morto, acervos, património, etc.

Esta pequena definição dá a entender que o comissário exerce a sua função em instituições de média ou grande dimensão, mas na verdade tornou-se uma identidade invocada a todo o comprimento e altura das artes. É usada nas escolas; é usada em pequenos eventos, às vezes individuais. Tornou-se uma aplicação óbvia de toda a teoria e investigação académica produzida em papers, pós-graduações, mestrados e doutoramentos.

Se é um conceito tão disputado é porque cumpre várias funções a vários níveis: ao topo, cumpre a função de tornar a gestão institucional numa experiência estética, e numa identidade exemplar (o artista como c.e.o.); ao nível intermédio, a especialização de cada vez mais artistas em curadoria é usada para obter quadros intermédios de administração, que preenchem a hierarquia entre os curadores de topo e as instituições e eventos que os acolhem – em paralelo, estes quadros também podem comissariar de modo independente as suas exposições, construindo o seu próprio currículo; em baixo, a curadoria é aplicada em situações quase descabidas, espaços diminutos, efémeros, eventos instantâneos, onde quase não faz sentido falar de uma gestão ou programação, o que só serve para reforçar a hegemonia do conceito, e dos locais onde ele faz mais sentido – grandes instituições ou eventos.

Como escapar a isto? E porquê? Porque, lá está, é uma monumentalização de actos de gestão, numa época em que actos de gestão bastante semelhantes vão destruindo a economia e a sociedade. Pode-se ler até a viragem curatorial como a reformulação da cultura à imagem da empresa. Seria útil então encontrar experiências estéticas que se escapem a isso tudo, não apenas por pirraça, mas também para encontrar alternativas políticas à situação actual. Formas colaborativas e não-hierárquicas, etc.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, curadoria, Exposições, Não é bem design, mas..., Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. Inês Tavares diz:

    Não costumo comentar por aqui apesar de seguir o seu blog há já algum tempo e de partilhar da maior parte das suas opiniões. No entanto, este tema interessa-me bastante e penso que posso deixar alguma “food for thought”.

    Existe sem dúvida um aumento da especialização de artistas em curadoria. Também é verdade que existe, certamente, alguma imposição da nova figura do curador, que muitas vezes está acima na hierarquia institucional e cujo poder se sobrepõe à vontade do artista.

    Mas o que tenho vindo a observar através do contacto com alguns curadores cuja formação inicial é em artes plásticas é que começa a haver um interesse na colaboração com o(s) artista(s) ao invés de uma relação meramente hierárquica. Ou seja: a curadoria assume-se quase como uma prática artística e não simplesmente como um acto de gestão/organização do espaço expositivo. Surge, portanto, uma espécie de meta-obra, em que as peças originais criam relações entre si e funcionam como um todo. Noutros casos, pode mesmo desenvolver-se uma nova obra através de uma contextualização específica e da contribuição activa do curador, sendo que aqui teremos uma obra de natureza colaborativa / co-autoral.

    Há curadores que preferem separar as águas e distanciar-se deste tipo de prática e há os que estão realmente direccionados para esta vertente. É evidente que nem todas as práticas artísticas funcionam neste modelo; parece-me, no entanto, que se a relação entre as partes for encarada de uma forma justa isto pode ter algum potencial.

    Espero que o que escrevi faça algum sentido. 🙂

  2. A meu ver faz todo o sentido, Inês. A questão da colaboração e cooperação entre artista e curador tem que se assumir como tal, e não pensá-la de forma hierárquica ou até de ‘choque’. Gostei especialmente do termo meta-obra. Eu sou artista plástico e curador, por isso entendo, e lutarei, pelo que escreveste. A questão vista sempre como co-autoria, e ambos se podem potenciar. cada um com a sua prática artística. O artista na ‘criação’ da obra e o curador na ‘criação’ da mostra – e na forma como pensar a obra em si e como relacioná-la com a(s) outra(s) e com o próprio espaço arquitectónico que se transformará no lugar do rendez-vous entre a obra e o espectador. E muito mais haveria a dizer.

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