The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Curating is the new criticism”

Em resposta¹ à famosa observação de Pedro Gadanho (e que dá o nome a este texto), ocorre-me que há uma diferença fundamental entre crítica e comissariado: ambos produzem um discurso argumentado em público sobre certos objectos ou áreas, é verdade, mas esses discursos são construídos materialmente de modos muito distintos. Enquanto a crítica é feita de palavras – neste momento basta um computador e acesso à net –, o comissariado constrói o seu discurso a partir da gestão ou colaboração com artistas, acervos, instituições ou eventos. Ou seja, enquanto a crítica é relativamente barata, não precisa de muitos meios, o comissariado pressupõe um acesso directo aos artistas, às obras, às instituições ou aos eventos. São estas as “palavras” que compõem o discurso do comissário.

A portabilidade económica da crítica, que a acompanha desde o seu começo,² é crucialmente democrática, no sentido em que a aproxima do espectador idealizado, que também não tem meios para construir a sua opinião usando retrospectivas, bienais ou museus. Durante bastante tempo, o carácter democrático da crítica era mais uma aspiração que uma realidade: o crítico dependia da instituição relativamente bem financiada que era o jornal ou a revista, mesmo que ele próprio não fosse assim tão bem pago. Agora, com a internet, as coisas evidentemente mudaram.

Porém, a quase total hegemonia do comissariado como discurso dá a entender que, numa época em que os custos da crítica são mínimos, se tornou necessário mais alguma coisa para se ser levado a sério, nem que seja a simples legitimação institucional.³ Pessoalmente, penso que seria essencial recuperar este carácter democrático e portátil, para não dizer independente, da crítica, principalmente numa época como a nossa, de crise institucional generalizada.

Notas:

1-Este texto é uma espécie muito solta de transcrição de uma pergunta/observação que fiz ontem, no final da excelente apresentação de Bruno Marques, precisamente sobre crítica e curadoria, no âmbito do Laboratório de Curadoria de Guimarães 2012, organizado pela Lígia Afonso.

2- Desde Addison e Steele, por exemplo, cujas publicações se aproximavam bastante aos blogs actuais em economia de meios, concisão e amadorismo convicto.

3-O mesmo pode ser dito em relação à chamada crítica produzida em contexto de investigação académica: nem toda a gente tem o acesso aos recursos e à legitimidade de uma universidade, por exemplo. Significativamente, aqui em Portugal, enquanto a crítica pública é mínima, os discursos curatoriais e académicos florescem.

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Filed under: Comissariado, Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

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