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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Filhos, Família, Design

Tal como todas as profissões, não basta produzir paginação, cartazes, logotipos, sites para se fazer design. É preciso fazê-lo de certa maneira, usando certas ferramentas, reconhecendo certas influências, etc. Por defeito, espera-se que o designer gráfico típico tenha o seu próprio atelier, sozinho ou com colegas, que trabalhe para clientes que o procuram aí, que faça o seu trabalho usando um Mac com o inDesign instalado, que tenha ouvido falar do designer X ou Y, da revista Z, etc. Não é, claro, uma obrigação rígida mas um conjunto de formalidades bastante  negociável. Poderíamos chamar a isto o discurso alargado da disciplina.

Poderá pensar-se que este discurso é acessório; que não importa realmente. Mas esta “lista de compras” não é decorativa ou sequer neutra. Promove valores e desencoraja outros tornando-os minoritários. Dá a entender, por exemplo, que o designer típico deve ser um profissional liberal, que não trabalha nos quadros de empresas de outras áreas mas é contratado como um consultor externo; dá a entender que o uso de software de marca é mais aceitável do que opensource, etc.

Sugere também questões mais subtis: quando se dá a entender que é necessário um espaço de atelier, separado do espaço doméstico, está-se por exemplo a desvalorizar a possibilidade, ou pelo menos a respeitabilidade, de um design produzido em casa. Hoje em dia já se vai tornando mais comum (dentro de uma relação heterossexual) homens e mulheres partilharem todas as responsabilidades (lida da casa, cuidar dos filhos, etc.), contudo ainda é habitual a mulher ver a sua carreira engasgada ou até interrompida pelo nascimento de um filho. A possibilidade de trabalhar a partir de casa, para além de permitir poupar nas despesas de um atelier, pode ajudar nestas situações – e, evidentemente, ajuda mesmo quando as responsabilidades são mais partilhadas ou quando é o homem a cuidar dos filhos mantendo também uma carreira. Estas questões não são novas e são regularmente levantadas por mulheres designers como Ellen Lupton.

Com a crise e com o colapso de muitas das funções sociais do Estado, tornando-as privadas e mais caras, somando-lhes uma carga brutal de impostos, tem-se acenado com o regresso da família como último amparo, um retorno à economia poupada e doméstica. É bastante provável que isso pretenda ser uma sentença de morte tácita às expectativas de carreira ou de formar família de muitas designers, em particular as que acumulam a prática do design com um ensino cada vez mais precário e nomadizado, obrigando a longas viagens entre instituições para assegurar um salário que valha a pena.

Este texto é em parte o resultado de um debate sobre o tema na cadeira de Crítica do Design que lecciono na Fbaup. Ele resume as minhas próprias posições sobre o assunto, informadas porém pelas dos meus alunos.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. nostrademos diz:

    Por falar em mulheres, faltou aqui uma justa homenagem à grande mulher e designer que foi Madalena Figueiredo, que muito fez pelo design e pelos designer portugueses .

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