The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vais daqui, vais de carrinho

Ainda sou do tempo em que “ir ao Passos” significava sair à noite no Porto, ir beber um copo ao Passos Manuel, antigo cinema reconvertido em bar/cinema/sala de concertos/etc., aninhado numa das dobras modernistas do Coliseu do Porto. Abria às dez, mas só se sabia se aquilo ia animar entre a uma e a uma e meia. Se animava, durava até às quatro; nos dias especiais até às seis. A seguir ainda se podia tentar um dos sítios mais tardios, que só fechavam quando a manhã seguinte já ia a meio. Não era um horário invulgar. Já era assim quando, antes do Passos, havia o Aniki e o Meia Cave, antes da noite do Porto se deslocar da Ribeira para o eixo Poveiros-Aliados-Rua de Ceuta-e-suas-perpendiculares. Leia o resto deste artigo »

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O Futuro das Artes Está No Porto

Querem saber como vão ser os próximos anos da cultura aqui em Portugal? Olhem para o Porto na última década. É a segunda cidade do país, empobrecida e periférica. Preterida pela televisão e pelos jornais, apontados quase sempre a Lisboa. Teve um momento de abundância com o Porto 2001, uma dinâmica sustentada por uma geração inteira de artistas plásticos locais, que se aguentaram precariamente, consolidados numa cena frágil durante mais meia dúzia de anos, depois da Capital da Cultura acabar e de Rui Rio chegar a presidente da câmara, ironizando que quando ouvia falar de cultura puxava logo do livro de cheques.

No final, esta cena incipiente não se extinguiu propriamente – dissolveu-se. Leia o resto deste artigo »

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Calotes & Regabofes

Tal como a sua evolução, a discussão da crise tem sido previsível ao ponto do tédio. Por exemplo, esta semana o economista Pedro Lains argumentou a necessidade de reestruturar a dívida. No Blasfémias, João Miranda respondeu, acusando-o de seguir a “a estratégia do caloteiro”. Lains respondeu explicando resumidamente os prós e os contras práticos e morais de não pagar uma dívida. Miranda responde, desta vez mais civilizadamente, acrescentando que, caso se escolha esse caminho, a reestruturação não será fácil. Lains encerrou do seu lado a discussão, dizendo que o “mais importante será talvez apenas notar que, em economia, a verdade nunca está encostada a lado nenhum. Por outras palavras, reestruturações nem são calotes, nem milagres de Fátima.” – uma conclusão que deveria ser óbvia mas precisa de ser lembrada e talvez até generalizando: não há soluções fáceis para a crise. Toda a gente vai sofrer com ela. A questão mais importante é como esse sofrimento vai ser repartido. Leia o resto deste artigo »

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O Facto Novo do rei

Quanto ao senhor que se fazia passar por observador da ONU, não há muito a dizer. Nem sei se alguma vez o ouvi. Tanto quanto sei, aparecia na televisão. Dava conferências. Os jornais e os telejornais levavam-no a sério. O que dizia era convincente, e ninguém se deu ao trabalho de lhe verificar o currículo. E porque o haveriam de fazer? Afinal, temos um Ministro que mentiu escandalosamente sobre o seu currículo e continua Ministro. Tivemos um Primeiro Ministro que fez o mesmo. E continuou a ser Primeiro Ministro até vir outro, que forçou a sua demissão por não concordar com políticas orçamentais que ele próprio aplicaria depois de eleito. Etc. Que adianta verificar um currículo? Curiosamente, e ao contrário da Grécia, até somos considerados credíveis lá por fora (sabe-se lá porquê). Quando o nosso executivo acabar de destruir a nossa economia e a nossa sociedade, não duvido que arranjará bons empregos pelo mundo fora, talvez até a chefiar organismos da ONU (não é inédito, veja-se Guterres). Resumindo, não acreditar em nada, nem ter confiança nenhuma, acaba por ser uma boa metodologia.

Devia-se actualizar a fábula do fato novo do Rei. No original, só uma criança dizia em voz alta o que toda gente sabia, que o fato não existia e o Rei desfilava nu. Agora, o Rei (toda a gente) dirá “Que interessa se o Rei vai nu? Afinal, é o Rei.” E a criancinha, se tiver sorte, só apanha um par de tabefes dos pais.

A moral da história: neste caso, não interessa muito se fato se escreve com ou sem c.

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Mensagem de Despedida

Não vi o Primeiro Ministro a falar. Cumpri rigorosamente o boicote. Infelizmente, dei com um resumo da mensagem na página do Facebook do Público. Pelos vistos haverá sacrifícios para todos e “todos beneficiarão das novas oportunidades”. Isto vindo de quem considerava o desemprego como uma oportunidade. Será que vai despedir toda a gente? Ilegalizar o trabalho em Portugal? Há uns anos, quase meses, a hipótese seria anedótica; neste momento tudo é possível, com este governo que demite tudo em que toca menos ele mesmo.

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Uma boa ideia que anda a circular no Facebook: boicotar a mensagem de Natal do Primeiro Ministro. Desligar a Televisão à hora marcada. Numa democracia todos têm o direito a falar e a serem ouvidos, mas têm também de assumir responsabilidades pelo que dizem, pelo que fazem, e pela ligação entre as duas coisas. Ora este governo, mais que os anteriores, tem a mesma relação com os factos que as legendas têm com os cachimbos em certos quadros de Magritte. Em um ano demonstrou-nos que não vale a pena ouvi-lo, principalmente se quisermos saber o que tenciona fazer e porquê.

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Votos de Bom Natal (Natal de Bons Votos)

Quando Obama ganhou estas últimas eleições, houve alguns republicanos que manifestaram o seu espanto pelo eleitorado feminino, gay, latino e negro ter votado no candidato cujo programa mais os beneficiava directamente.[1] Aparentemente (e não é só lá) também se acredita que votar é um sacrifício, não apenas por transtornar uma ida à praia ou ao centro comercial mas por implicar o sacrifício dos próprios interesses em nome do que algumas pessoas chamam (abusivamente) “interesse nacional”.

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Stalker

Há exactamente um ano andava com vontade de ver o Stalker. A razão era simples: passar o Natal em Trás-os-Montes, uma região cada vez mais próxima de um filme de ficção científica dos anos 60-70, aqueles mais cépticos em relação à tecnologia, distópicos, onde a natureza, os desertos, as florestas, não eram apenas uma maneira de poupar dinheiro nos cenários, mas de mostrar que no final, ela acabava sempre por vencer, relva a crescer nas auto-estradas, no meio das ruínas de cidades. Em Vila Real, a sensação é sempre essa, a de um progresso impossível de distinguir da decadência: tuneladoras ao lado de uma estação de comboios abandonada, Porsches estacionados junto a uma carroça enferrujada. Leia o resto deste artigo »

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Design e Austeridade

Ando a ler sobre as políticas de austeridade inglesas do pós-guerra e o modo como se relacionaram com o design. A Inglaterra saiu do conflito endividada e a estratégia passou pelas exportações. Criou-se toda uma gama de produtos dirigidos ao estrangeiro, o que provocou bastantes protestos e instabilidade social num país condenado a assumir como desígnio nacional objectos a que não tinha acesso. Mas também havia a necessidade da reconstruir, que não era apenas logística mas social, tentando manter a coesão conseguida durante a guerra, e contrabalançar a reintegração de uma população mobilizada. Assim, houve uma política de design dirigida também para dentro, que procurava a fiabilidade e qualidade e não o luxo e a exclusividade. Tudo em Austerity, optimism: modern typography in britain after the war, de Paul Stiff, publicado em Typography Papers 8, Hyphen press.

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Manchetes

Dizia-se que vão acabar com o Inimigo Público (para ser franco nunca o li regularmente), mas seria talvez melhor acabarem com o próprio Público, ficando apenas o suplemento de humor. Melhor ainda seria dissolverem um no outro, ficava um jornal sério, mas incisivo e emocional. Um pouco como era o Independente. Que belas manchetes não fariam para a nossa actualidade. Até as consigo ver, em grandes letras retintas: “TAPalhada” ou “BuroCRATO”. Onde andam jornalistas criativos e sem medo como Paulo Portas quando mais precisamos deles? Leia o resto deste artigo »

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O Melhor Design do Ano

Dentro do design, não foi um ano onde consiga isolar um evento, um livro, um estilo ou uma exposição. Houve muita coisa e muita coisa boa mas no conjunto soube-me a pouco. Foi um ano que me pareceu vazio. Intermédio. Os estilos da última década, cansados: o chamado estilo holandês ou werkplaats no design gráfico (impressão em RISO, lombada cosida à vista, etc.); tudo o que seja hipster ou aquela coisa quase punk do pós-hipster (do sapatinho oxford até à Doc Martens). Não sei o que possa ser o estilo que se segue: algo mais agressivo, impaciente, espero. Leia o resto deste artigo »

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Kamehamea!

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Passos tem uma voz tão bonita que deviam pô-lo a dobrar desenhos animados. Nem era preciso mudar o conteúdo. Imaginem o Sangoku a dizer “É completamente falso que o Governo quer destruir o Estado Social!”

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Taxi Driver

A ouvir Passos no rádio do Taxi a debater com Seguro. Segundo o próprio, nunca houve um governo tão bom como este, que tenha cortado tanto na despesa do Estado desde 1974, a cumprir o plano de ajustamento, com os juros da dívida a baixar. Seguro lembra o desemprego e o papel do Banco Central na descida dos juros. Passos insiste, culpa os governos anteriores, acusa o PS de querer pôr as rotativas do BCE a funcionar e que este emprestasse dinheiro ao país aos mesmos juros que empresta aos bancos (a condescendência da voz dando a entender que isto seria um absurdo). Leia o resto deste artigo »

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A Máquina de Fazer Crescer Relva

Já foi há uns meses, talvez mais de um ano, não tenho como saber. Acabava de entrar no Alfa Pendular em Campanhã. O comboio vinha de Braga, já com alguns poucos passageiros. Ocupei o meu lugar na carruagem 3, mesmo junto á porta do bar, de costas para a marcha. Abri o meu computador, tirei alguns livros da mochila. Uns lugares à minha frente, num daqueles grupos de assentos rodeando uma mesinha, reparei numa cara familiar, a dormir profundamente, boca escancarada e pregas de bochecha contra o vidro.

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Vão-se os Anéis Ficam os Medos

Tenho a assinatura electrónica do Público. Costumava ler as notícias num pdf, publicado por volta das seis da manhã, mal acordava, antes de tomar o café. Às vezes, a meio da noite, quando não conseguia dormir, ia lá espreitar.

Mais ou menos por altura do despedimento dos jornalistas o pdf começou a aparecer pouco depois da Meia Noite, nunca mais de vinte minutos. Sempre que o leio, penso nisso: se será coincidência, se não. Imagino jornalistas a trabalharem mais depressa, por medo. Leia o resto deste artigo »

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Crise de Identidade

Resumindo o que já escrevi em outros textos: as artes, incluindo o design ou a arquitectura, não têm ferramentas para enfrentar esta crise. Porquê? Porque são, neste momento estruturas de serviços onde anomalias como a precariedade, o estágio e o resto se tornaram banais e até identitárias. Leia o resto deste artigo »

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Escolhas

Desde o fim da adolescência que meço mais ou menos 1 metro e 72. Peso neste momento à volta de 65 kilos; já cheguei aos 73 (na altura do Natal). Enquanto estudava na universidade cheguei a pesar 52 kilos. Não se tratava de dieta mas de uma obsessão com livros. Entre uma refeição ou um livro mais tentador, escolhia quase sempre o livro. Na verdade não era incomum passar uns dois ou três dias literalmente a pão e água por causa de um livro ou de uma ida ao cinema. Leia o resto deste artigo »

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Pacheco Pereira

De vez em quando, ele ainda se descai e critica os gastos com a cultura. E ainda argumenta que o Estado devia canalizar o dinheiro da assistência social para a Igreja, que o saberia distribuir muito melhor. Tirando coisas dessas, Pacheco Pereira anda muito mais à esquerda que Seguro  e, sozinho, é mais oposição do que boa parte do PS. Faz ele bem. Fico a pensar que o pouco que o separa da esquerda é uma ida sentida ao teatro (companhia subsidiada, claro). Se alguém lhe oferecesse pelo Natal um gostinho pela cultura (nem precisava de ser permanente, bastava uma prótese)…

E porquê o penteado à CDS-PP, porquê?

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(Inversões)

(Almoçava hoje no CCB enquanto, invisível no andar de baixo, um quarteto afinava os seus instrumentos, provocando-me imediatamente um ataque de pieguice. Mais que a música é o acto de afinar que me indica a presença quente de música ao vivo e não de uma gravação.)

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Imunidade

Outro dia, apanhei mais alguém a sentenciar que uma pessoa normal nunca se tornaria num sem-abrigo; para viver na rua é preciso uma predisposição, preferir essa vida a um emprego, a responsabilidades, à família. No fundo, só é pobre quem não merece, quem se portou mal, quem já estava destinado a falhar. Há gente que é pobre, por natureza, e há gente que nunca o será. No dia seguinte, o Público noticiava que Portugal é um dos países onde a pobreza tinha alastrado a estratos sociais que se julgavam imunes.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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