The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Caricaturas

António Guerreiro, no Expresso deste fim de semana, defende que a “doutrina neoliberal, no discurso corrente da esquerda, é uma mera máquina de desmantelamento do Estado. Ora, o neoliberalismo é algo mais complexo e, sobretudo, constitui um desafio à esquerda, para esta se pensar a si própria”. Essencialmente, acusa a esquerda de atacar não o neoliberalismo mas uma caricatura a traço grosso.

Contudo, ele próprio acaba por cair numa generalização caricatural do discurso de esquerda. Se o neoliberalismo é uma doutrina com décadas de existência, a sua crítica também já não é nova, nem se resume a acusações de desmantelar o Estado.

A ideia que o neoliberalismo rouba à esquerda o “monopólio da produção de utopias políticas e filosóficas”, que a sua crítica ao Estado se aproxima ao Anarquismo, não é novidade nenhuma. Eu próprio já o assinalei várias vezes.  Não fui o primeiro, nem o único. Nem no campo teórico (Polanyi já o tinha feito há décadas), nem no discurso publico português (já se tornou costume ver comentadores de Esquerda a troçar da confiança neoliberal nos “amanhãs que cantam”).

O aparente paradoxo, também assinalado por Guerreiro, do neoliberal que acusa o Governo de só ser falsamente liberal (porque aumenta impostos ao contrário do que a doutrina advoga) também já é conhecido e também já foi resolvido.Veja-se por exemplo a introdução de Fred Block ao livro de Karl Polanyi:

But the very utopianism of market liberalism is a source of its extraordinary intellectual resilience. Because societies invariably drawback from the brink of full-scale experimentation with market self-regulation, its theorists can always claim that any failures were not the result of the design but of a lack of political will in its implementation. The creed of market self-regulation thus cannot be discredited by historical experiences; its advocates have an airtight excuse for its failures.

Mesmo o uso de instrumentos de análise como a biopolítica, desenvolvida por Michel Foucault, não está também completamente ausente do discurso da esquerda, como diz Guerreiro. Muito do pensamento de esquerda mais interessante sobre trabalho precário, por exemplo, apoia-se de maneira explícita sobre o conceito de biopolítica. Vejam-se os livros Império ou Multitude, de Toni Negri e Michael Hardt – que me foram particularmente úteis para compreender as implicações do estágio dentro do design gráfico.

A verdade é que o neoliberalismo enquanto tema de discussão pública em Portugal é recente. Muito do debate mais público sobre ele é pouco informado. Há estratégias argumentativas e alternativas políticas bastante eficazes que podem ser usadas contra o neoliberalismo, mas não são suficientemente divulgadas, nem nos jornais, nem na televisão, onde domina o comentário breve e a reacção a quente ao evento da semana.

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Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. […] Ando a reler o Nascimento da Biopolítica de Michel Foucault (1979), por onde já tinha passado por causa de Toni Negri e Michael Hardt, que usavam o conceito em Império (2000), para falar de precariedade e oposição a um capitalismo total. Voltei a ele por causa de António Guerreiro. […]

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