The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Carreirismo e o seu Artesanato

Às vezes, quero escrever sobre um assunto e acabo a escrever sobre outro. No texto anterior, queria falar de Miguel Relvas e acabei por falar de divulgação cultural. O salto pode parecer excessivo mas compreende-se com pouco esforço: no caso da divulgação de eventos culturais prefere-se cumprir os requisitos formais da divulgação sem realmente divulgar; no caso Relvas (o do diploma), o ministro preferiu cumprir os requisitos formais de um curso universitário sem realmente o frequentar.

Daniel Oliveira aponta que Relvas é um político bem sucedido, não porque seja popular em geral mas porque é popular junto do topo das hierarquias partidárias. Do mesmo modo, muita divulgação não se destina ao público em geral, mas a quem realmente interessa. No caso de uma publicação académica, bastaria realmente imprimir uma dúzia de exemplares: para o Director da escola, para o Reitor, para o FCT, para o Ministério. Tudo o resto é, de modo geral, papel mal gasto. No fundo, a tiragem académica ideal acaba por ser a de uma tese de doutoramento: mais ou menos uma dúzia de exemplares, dos quais um ou dois são por regra devolvidos ao autor porque não servem para nada.

Querendo realmente divulgar as coisas, seria bastante fácil fazê-lo. A internet ainda é gratuita. Para quem gosta de papel, ainda há bons serviços de print on demand. Mas em ambientes altamente hierarquizados (por oposição a ambientes democráticos), é de bom tom dar a entender que há mais legitimidade consumindo inutilmente recursos. Um livro, um catálogo, um convite impressos são actos de ostentação, de poder.

E é claro que a burocracia das instituições, acumulando, às vezes durante décadas, caixotes de livros por abrir, também é uma demonstração de poder. Só publica finalmente quem pode gastar dinheiro (em primeiro lugar) e (mais importante, crucial) quem está na posição hierárquica para desbloquear as gincanas administrativas.

Não admira que, nestes ambientes (escolas, museus, etc.) muito do que sai cá para fora acabe por não interessar a quase ninguém. É apenas o resíduo da construção de currículos, o rasto reluzente, couché, que certo poder deixa atrás de si, como um caracol ou uma lesma.

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Filed under: Crítica

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