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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Caridade e Design

Houve uma altura mágica, entre 1999 e 2008, onde se falava muito de ética e política no design. Começou mais ou menos com o First Things First 2000 e terminou com a Crise. Não foi coincidência. O design ético e político só vingou enquanto havia dinheiro para investir em caridade. Para atrair donativos e mecenas, certas causas começaram a comportar-se mais como empresas com logótipos, powerpoints, inovação e empreendedorismo – daí os designers,que ajudavam as diferentes caridades a competir entre si.

É uma iniciativa semelhante à daqueles designers que decidem ajudar um sem-abrigo desenhando-lhe um letreiro mais chamativo, que seja difícil ignorar. Mas ajuda-se um sem abrigo e há logo outro ao lado. Faz-se-lhe também um cartaz? E ao seguinte? Talvez não seja boa ideia: se os letreiros forem todos diferentes, fica em vantagem quem tiver o melhor (não é justo); se forem todos iguais fica em vantagem o sem-abrigo mais carismático, que já conseguia, só por si, cativar os transeuntes (o cartaz acaba por não fazer efeito para além de lhe dar ainda mais vantagens sobre os outros). E, se calhar, até só fizemos o cartaz porque aquele sem-abrigo já nos tinha chamado a atenção, porque parecia mais desesperado, mais ansioso, mais prometedor.

Mas “parecer” e “ser” são coisas diferentes – como saber realmente quem precisa mais de ajuda?

Porque não recorrer a gente experiente, que consiga identificar os casos mais desesperados, que consiga canalizar os donativos de muita gente para onde poderão ser mais úteis? É claro que, tal como com os sem-abrigo, também é preciso escolher a melhor caridade, a que fizer campanhas mais visíveis, em sítios mais públicos. E, se calhar, só a escolhemos porque tinha os sacos de plástico mais fixes e não porque fosse a melhor. Não sabemos.

Assim, a minha forma favorita de caridade (que não invalida outras) é pagar os meus impostos e, esperar, como eu ingenuamente esperava até este governo aparecer, que usassem esse dinheiro para o bem comum de todos, em especial os mais fracos e os mais desfavorecidos. Tudo isto para responder a quem acha, como a senhora Jonet, que a solidariedade do Estado é mais fria e impessoal – numa sociedade melhor chamar-se-ia a isso imparcialidade.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. Carlos diz:

    Eu trabalho numa empresa que pertence a um grupo grande e poderoso. Numa atitude generosa, este grupo apoia entidades sem fins lucrativos que prestam assistência a pessoas carenciadas. A sua contribuição consiste em angariar voluntários entre os trabalhadores do grupo (pessoas que já trabalham mais de 40h semanais com salários baixos e sem remuneração de horas extraordinárias). Alguns disponibilizam-se para ajudar essas entidades e são distribuídos pelas diferentes actividades em que é necessário algum apoio (não havendo uma relação entre as tarefas a desempenhar e as suas aptidões). Uma das principais áreas de intervenção é precisamente a divulgação, que recebe um reforço de mão-de-obra inadequada e altamente motivada para produzir os mais variados objectos que o director define (na maioria dos casos a ocupar um cargo que lhe foi atribuído por um amigo melhor colocado na estrutura da sociedade).
    Se este grupo realmente quer ter uma acção social, não entendo a razão pela qual não contracta ou apoia a contratação de um profissional desempregado adequado às necessidades específicas destas instituições. Não percebo porque explora duplamente (trabalho e boa vontade) os seus colaboradores para poder declarar no seu relatório anual que é socialmente responsável. O pior, é que eu acho que eles estão convencidos que têm um contributo altamente benéfico…

    • O que se passa na tua empresa é que todos esperam que o seu exibicionismo caridoso se traduze em segurança ou ascensão dentro da empresa. Os que vivem na ilusão de que ajudam os seu próximo não passam de vítimas do team-building e do seu próprio insticto tribal (usado e abusado pelas religiões e seitas, diga-se).

  2. r.c. diz:

    eu faço já faço caridade.
    e todos os dias com quem me paga mal.
    é o meu “contributo” para que os empresários (esses grandes mecenas) levem para a frente um pais enjeitado…
    ahhh a verdadeira miséria

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