The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Ninguém Compreende o Neoliberalismo”

Às vezes, quando estou mais cansado, tento perceber as pessoas que acreditavam neste Governo e entretanto se desiludiram. Não falo dos que só queriam ver-se livres de Sócrates e votarão pela mesma razão contra Passos, mas dos que realmente acreditam numa agenda neoliberal (o que interessa é a iniciativa individual; o Estado que melhor governa é o que governa menos; que sai do caminho da iniciativa privada; o mercado, se for deixado em paz, garante a harmonia da sociedade bem melhor que o Estado; na prática, para o neoliberal o mercado acaba por ser uma ocorrência natural da democracia, embora poluída pelos interesses de políticos e medrosos que preferem a segurança imediata e egoísta à possibilidade de uma sociedade mais justa e dinâmica.)

É uma ideia antiga, associada à América (não começou só lá) mas que se internacionalizou há muito. Como todas as ideias globais, a sua aplicação muda subtilmente de sítio para sítio. Tanto quanto posso perceber, quem acredita nela em Portugal acredita que o nosso Estado é despesista, dirigido por corruptos, tal como boa parte das nossas instituições que se dedicam o mais possível a gerir monopólios à custa dos consumidores.

Alguém de Esquerda poderia dizer a mesma coisa, concordando com o diagnóstico (quem discordaria?), ressalvando porém que o despesismo do Estado não se deve certamente à cultura, à educação, à segurança social ou à saúde.

O neoliberal português está convicto que a sua doutrina é a solução para todos estes problemas. Se o Estado é despesista corta-se na função pública, na saúde, no ensino, nas mordomias. Se o Estado é corrupto, diminui-se o mais possível a sua influência no mercado, na prestação de serviços, na vida dos cidadãos, nos seus bolsos, reduzindo os impostos. Deixando-os gastar o seu dinheiro onde quiserem, incentivando-os mesmo a isso, está na verdade a libertá-los, permitindo-lhes escolher os melhores serviços pelos melhores preços.

O Estado fica apenas com a função de regular e punir os excessos e as anomalias de mercado – garantir que a lei é aplicada, a justiça, a segurança pública, mas sobretudo o bom funcionamento do mercado, evitando monopólios, cartéis, etc.

Como filosofia o neoliberalismo é mais complexo do que isto, mas este não será um mau resumo, calculo. Faço-o porque tem-se dito que a Esquerda não compreende verdadeiramente o neoliberalismo (António Guerreiro, Vasco Pulido Valente, etc.) mas, como de costume, perceber não é a mesma coisa que concordar.

Não é difícil perceber, por exemplo, que ele não está a funcionar aqui. É inegável. A Esquerda e alguma Direita dirão que é pelos seus próprios defeitos; os neoliberais dirão que é por causa da conjuntura. Argumentar-se-á que é por causa da crise, que se estivéssemos numa altura melhor daria certo. Mas isso simplesmente confirma que não é uma doutrina que funciona em todas as ocasiões. Tem falhado redondamente durante esta crise, em todo o lado e aqui em Portugal. Falhou também nos Estados Unidos, provocando a crise em que nos encontramos. Por lá, é cada vez mais óbvia a ideia que viver acima dos meios é o próprio neoliberalismo e não aquilo que ele se propõe resolver.

Por aqui, nunca resolverá a corrupção ou o despesismo, erodindo o Estado e as várias relações sociais que se foram construindo à volta dele, sejam elas positivas ou negativas. O que fica são coisas mais antigas, a família, a mesa de restaurante, a conversa de bastidores, o favor que se paga, que nunca desapareceram mas pelo menos tinham alguma competição mais democrática, que dava a ideia que alguém sem família, dinheiro ou conhecimentos até se podia safar. Nem se pode falar sequer de corrupção, porque isso implicaria uma falta ou um crime (e quando toda a ética se resume ao mercado desregulado há alguma coisa que não possa estar à venda?)

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política

One Response

  1. Eunice diz:

    ” é cada vez mais óbvia a ideia que viver acima dos meios é o próprio neoliberalismo e não aquilo que ele se propõe resolver.” – exactamente. E, como tal, o neoliberalismo instala-se nos governos, infiltra-se no estado e constrói a sua falência. E depois expõe os louros: o estado é despesista, não funciona, dá-se à corrupção. Privatizemos irmãos. A destruição dos Estados é o seu objectivo. Jogos sem fronteiras, sem regras a não ser as que os mercados impuserem a cada instante.

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