The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Escolhas

Desde o fim da adolescência que meço mais ou menos 1 metro e 72. Peso neste momento à volta de 65 kilos; já cheguei aos 73 (na altura do Natal). Enquanto estudava na universidade cheguei a pesar 52 kilos. Não se tratava de dieta mas de uma obsessão com livros. Entre uma refeição ou um livro mais tentador, escolhia quase sempre o livro. Na verdade não era incomum passar uns dois ou três dias literalmente a pão e água por causa de um livro ou de uma ida ao cinema.

Recebia uma semanada modesta dos meus pais, dada em notas de escudo quando ia passar o fim de semana com eles (ainda não havia multibanco, pelo menos para mim). Às vezes, o dinheiro vinha através de um vale postal (o que implicava esperar dois ou três dias bastante esfomeados). Isto durou anos.

Tudo isto para dizer que, pela minha experiência, mesmo quando não se tem muito dinheiro, a cultura (um livro, um filme, uma peça de teatro, roupa) não deixa de ser uma primeira necessidade, a matéria prima da criação da minha própria identidade. Permitia-me encontrar ideias muito diferentes das minhas, conceitos sobre os quais nunca tinha pensado.

Quando ouço gente a sentenciar sobre a imoralidade de fazer sacrifícios para ir ver um concerto (Jonêzices e afins), sinto quase uma obrigação moral de fazer sacrifícios para ir a um concerto Rock – nem que seja por nostalgia. As escolhas não são melhores ou piores quando se fazem com fome. Mas são nossas e de mais ninguém. Livres.

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Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. AC diz:

    Pegando no exemplo do concerto, o Holocausto fornece algumas boas indicações sobre a ordem de necessidade da cultura: prisioneiros de vários campos de concentração dedicaram horas dos seus últimos dias de vida a compor, interpretar e/ou ouvir música. Como digo, é apenas um exemplo.

    Precisamos tanto de cultura como de ar, alimento e água. E quando achamos que o outro não precisa (porque é sempre o «outro» que pode prescindir), é porque nos achamos no direito de tomar decisões que não são nossas.

  2. luix diz:

    ou como diria arnaldo antunes: …a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte….

  3. António calo diz:

    Tripla dose de aplausos ao texto…o quanto eu me identifico: os livros e liberdade de escolha, mesmo nas prioridades.

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