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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Máquina de Fazer Crescer Relva

Já foi há uns meses, talvez mais de um ano, não tenho como saber. Acabava de entrar no Alfa Pendular em Campanhã. O comboio vinha de Braga, já com alguns poucos passageiros. Ocupei o meu lugar na carruagem 3, mesmo junto á porta do bar, de costas para a marcha. Abri o meu computador, tirei alguns livros da mochila. Uns lugares à minha frente, num daqueles grupos de assentos rodeando uma mesinha, reparei numa cara familiar, a dormir profundamente, boca escancarada e pregas de bochecha contra o vidro.

Demorei um segundo a situá-lo. Era o cromo do Prós e Contras, o homem do “bater punho com sagacidade”.

Em Gaia, ainda estava indeciso se lhe tirava ou não uma foto, quando entram mais duas caras conhecidas, também eles contribuidores regulares do Prós e Contras: José Gil falador, amparando um Eduardo Lourenço muito velhinho e afogueado, evidentemente mais preocupado em alcançar as carruagens de primeira classe — Conforto — depois do bar do que em prestar atenção ao colega. Passaram pelo cromo adormecido e por uns segundos as duas extremidades mais opostas do pensamento português ocuparam o mesmo metro quadrado. Se aquilo fosse tudo em bronze, era uma alegoria instantânea embora de sentido obscuro — qualquer coisa sobre a democracia inerente aos transportes públicos?

O cromo era um guru do emprego ou mais exactamente do desemprego. Com a fama alcançada, andou pelos palcos do país a promover o “descaramento”. Criou uma espécie de evento-barra-agência de empreendorismo modelada num concurso de talentos, onde aspirantes a empreendedor podiam lançar a sua Ideia a empresários. Chamava-se, salvo erro, “Achas que sabes fazer Pitch?” No fundo, uma entrevista de emprego acelerada, baseada em programas de televisão que são também entrevistas de emprego, ao retardador porque a humilhação no pequeno ecrã encadeia as audiências.

Tudo isto baseado num argumento simples: os jovens na escola não têm contacto com a realidade empresarial. É preciso um intermediário para juntar estes dois mundos.

Ora, quando estudei design, boa parte dos meus professores eram empresários do design. Só lá para o final dos anos 90 é que apareceram professores profissionais de design. Nunca houve grandes problemas em ligar empresas à escola, antes pelo contrário. Havia bastantes discussões de corredor sobre estágios não remunerados em empresas de professores que se queixavam que os alunos não aprendiam nada na escola; sobre professores que trabalhavam como designers para a universidade cobrando balúrdios e sabotando directa ou indirectamente os esforços da escola se financiar produzindo também trabalhos para universidade, etc.

É provável que não sucedesse a mesma coisa em letras, mas no design, na arquitectura e mesmo nas arte plásticas já há muito tempo que as escolas obedecem a um modelo empresarial, de maneira bastante insatisfatória. Para uns, porque torna o ensino num mero estágio, sem grande inovação (aprender os Adobes, como se diz kerning e o que é um manual de identidade); para outros porque a escola acaba por não ser um local ideal para ensinar estas coisas (para isso mais vale ir logo para o atelier).

Entretanto, a relação das empresas com as escolas generalizou-se, com os resultados que se sabe: futuros ministros a quem o currículo é convertido directamente em diploma; escolas onde os professores de matemática fazem a contabilidade, etc. É a liberalização, dizem-nos, onde somos livres de escolher o que quisermos, desde que isso não implique um ensino de qualidade ou impeça que se passe boa parte do curso na fila para a secretaria (nem toda a gente tem o currículo de um Relvas).

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Ensino, Estágios, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. andrev87 diz:

    Bem, só o primeiro parágrafo fez rir imenso neste sábado cinzento! Sempre bom, professor Mário. Obrigado.

  2. “Para uns, porque torna o ensino num mero estágio, sem grande inovação (aprender os Adobes, como se diz kerning e o que é um manual de identidade); para outros porque a escola acaba por não ser um local ideal para ensinar estas coisas (para isso mais vale ir logo para o atelier).”

    Algo que me tem ocorrido em pensamento regularmente sobre o ensino/aprendizagem de/no design é a diferença entre um curso nesta área num politécnico ou numa universidade….
    Conceptualmente acho que entendo. Na forma, tenho muitas dúvidas…

  3. […] um post ou dois sobre o assunto. O nome do segundo, “A Máquina de Fazer Crescer Relva”, até […]

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