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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Melhor Design do Ano

Dentro do design, não foi um ano onde consiga isolar um evento, um livro, um estilo ou uma exposição. Houve muita coisa e muita coisa boa mas no conjunto soube-me a pouco. Foi um ano que me pareceu vazio. Intermédio. Os estilos da última década, cansados: o chamado estilo holandês ou werkplaats no design gráfico (impressão em RISO, lombada cosida à vista, etc.); tudo o que seja hipster ou aquela coisa quase punk do pós-hipster (do sapatinho oxford até à Doc Martens). Não sei o que possa ser o estilo que se segue: algo mais agressivo, impaciente, espero.

Em Portugal, já não há o vazio de há uns anos (há exposições, publicações e eventos semanais, senão diários), mas isso leva-nos ao problema seguinte, que já afligiu a música, o cinema e a literatura antes de nós. Convivemos mal com a abundância: começa-se a dizer que é demais e congemina-se maneiras de o evitar. O primeiro impulso é quase sempre burocrático: se há cursos a mais, o ministério deveria arranjar maneira de fechar uns tantos; se há exposições a mais, deveria haver um critério de apoio mais exigente. Mas a solução mais justa é, muito simplesmente, não ir a tudo, não ver todos os filmes, não ler todos os livros, não ir a todas as conferências. Ver apenas o que nos interessa.

Quem nos ajuda a decidir seria o crítico, entendido aqui como um espectador profissional, que põe o dedão na água antes do resto do público, que ensaia argumentos públicos a favor ou contra certo objecto. O problema é a pouca crítica, na época em que mais precisaríamos dela. Ainda temos dois ou três suplementos semanais. Algumas publicações especializadas dentro do design e da arquitectura. Nas artes plásticas as coisas são mais sombrias. Só existe, tanto quanto sei, o Arte Capital.

Do lado académico, multiplicam-se as investigações críticas mas são poucas as realmente divulgadas. Os temas repetem-se como se nunca tivessem sido tratados. Gastam-se balúrdios para “publicar” – mais exactamente para aprovar burocraticamente textos em eventos circunscritos aos intervenientes –, dinheiro que seria bem melhor gasto a tornar o sistema mais público e democrático.

Mas o problema não é financeiro mas político ou cultural. Não é preciso muito dinheiro para se ter uma audiência: basta acesso à net. Acreditar que é preciso mais do que isto, uma publicação em papel, distribuição, é uma desculpa. Mais: é uma espécie de imposto sobre a cultura. Se nunca há dinheiro para pagar a colaboradores, escritores, designers, porque se gasta dinheiro a imprimir e a distribuir? O mesmo se pode dizer de outras coisas: porque se gasta dinheiro a produzir exposições onde os artistas são pagos em visibilidade e o financiamento se fica pela cobertura dos custos institucionais?

Por estas e por outras, não consigo eleger um objecto de design que me encha as medidas este ano e sobretudo em Portugal: cada catálogo, livro ou poster coloca-me dúvidas que ainda não sei resolver. Legitima estruturas de produção que me parecem pomposas e crueis, onde é preferível ter um desdobrável impresso mesmo que implique atrasar o pagamento a alguém, onde a ideia do sacrifício já se consolidou, já não é uma excepção mais uma formalidade.

Dentro do design, o que gostaria de ver (mas não vi) seria um repensar das implicações políticas e económicas de decisões formais e técnicas. Se a tarefa do designer gráfico é produzir a identidade visual pública de todo o género de instituições, no fundo a sua legitimidade pública, seria útil que essa legitimidade fosse mais económica e mais justa. E não, não estou a falar de bienais e conferências onde se discute o design de favela, tudo registado em belíssimos catálogos bem produzidos com a ajuda de estagiários não remunerados.

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Filed under: Crítica, Cultura, curadoria, Design, Economia, Estágios, Exposições, Política, Prontuário da Crise, Publicações

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