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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Votos de Bom Natal (Natal de Bons Votos)

Quando Obama ganhou estas últimas eleições, houve alguns republicanos que manifestaram o seu espanto pelo eleitorado feminino, gay, latino e negro ter votado no candidato cujo programa mais os beneficiava directamente.[1] Aparentemente (e não é só lá) também se acredita que votar é um sacrifício, não apenas por transtornar uma ida à praia ou ao centro comercial mas por implicar o sacrifício dos próprios interesses em nome do que algumas pessoas chamam (abusivamente) “interesse nacional”.

Se calhar, até já houve uma altura em que as pessoas votavam nos seus próprios interesses (algumas ainda o fazem, suponho). Só sei que, agora, boa parte castiga o governo anterior, substituindo-o por outro quase igual. Cada votação é um referendo ao governo actual, pouco importa o programa. Assume-se que cada governo, PS ou PSD, é a mesma coisa. Mesmo quem se abstém, pensa o mesmo: não faz diferença, votando ou não, o resultado é o mesmo.

E foi assim que, quando apareceu esta crise, nos apareceu um governo com um programa diferente e mais radical que o costume, que se aproveitou da rotatividade para se instalar no poder e dar cabo do esquema. Fez as promessas habituais, foi eleito e rapidamente desatou a cumprir o seu programa, que assenta precisamente na maioria da população fazer, quer queira quer não, sacrifícios por um programa que nunca a beneficiará, directa ou indirectamente, a curto, médio ou longo prazo.

Não deixa de haver aqui alguma justiça representativa, mesmo que sarcástica: um eleitorado que vota sacrificando os seus próprios interesses em nome de uma maioria governativa estável é representado por um governo que assume que esse eleitorado está disposto a sacrificar os seus próprios interesses.

Quem se abstém ou vota a favor ou contra o governo actual dirá que o faz porque não adianta, porque ninguém representa realmente os seus interesses, mas a verdade é que quanto mais gente pensa assim, menos incentivo haverá a que os dois maiores partidos representem outros que não os seus próprios interesses.

Assim, se há precariedade, se há desemprego jovem, se há desigualdade, se nos são impostos sacrifícios, é porque votamos sacrificando os nossos interesses, votamos na pior combinação possível, votamos para que ganhe o mal menor, quando deveríamos votar para que os nossos próprios interesses sejam representados, mesmo que na oposição.

Pior ainda, em muitos casos nem vamos votar. Escandaliza-me sempre um pouco que gente que se manifesta contra a precariedade acabe por não ir votar. Se a sociedade os exclui, a verdade é que participaram dessa exclusão. Sacrificando o seu voto, acabam por legitimar os sacrifícios que lhe são impostos.

O meu voto para este Natal é que mais gente vote. Pode ser que apareça alguém que se aperceba que vale a pena representar os interesses da maioria das pessoas e não apenas de uma meia dúzia – vejam a América.


[1] Por cá, há quem diga o mesmo. Adivinhem quem disse isto:

“O nosso problema não é, ao contrário do que dizem os manifestantes, falta de democracia: é os mecanismos democráticos favorecerem as maiorias, e as maiorias só agora terem começado a perceber que o contrato social do pós-guerra é insustentável. Porém, mesmo sendo insustentável, ainda beneficia essas maiorias.”

(solução aqui).

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] Mas Santana Lopes sabe porquê: “No primeiro mandato e até meio do segundo está tudo bem. E, depois, para serem interessantes, têm de discordar do Governo”. Ou seja, como já não vão ser reeleitos, os presidentes decidem, ao fim, serem populistas e concordar com a oposição, num país em que vota castigando o governo anterior. […]

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