The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Calotes & Regabofes

Tal como a sua evolução, a discussão da crise tem sido previsível ao ponto do tédio. Por exemplo, esta semana o economista Pedro Lains argumentou a necessidade de reestruturar a dívida. No Blasfémias, João Miranda respondeu, acusando-o de seguir a “a estratégia do caloteiro”. Lains respondeu explicando resumidamente os prós e os contras práticos e morais de não pagar uma dívida. Miranda responde, desta vez mais civilizadamente, acrescentando que, caso se escolha esse caminho, a reestruturação não será fácil. Lains encerrou do seu lado a discussão, dizendo que o “mais importante será talvez apenas notar que, em economia, a verdade nunca está encostada a lado nenhum. Por outras palavras, reestruturações nem são calotes, nem milagres de Fátima.” – uma conclusão que deveria ser óbvia mas precisa de ser lembrada e talvez até generalizando: não há soluções fáceis para a crise. Toda a gente vai sofrer com ela. A questão mais importante é como esse sofrimento vai ser repartido.

Não se trata (e é isso que já se tornou previsível na discussão da crise) de opor o rigor austero da direita ao regabofe caloteiro da esquerda. Pôr as coisas nestes termos é uma caricatura. E só dentro dos limites dessa caricatura é que parece contraditório quando economistas de esquerda como Krugman ou Stiglitz defendem a redução de salários nos países endividados do Sul, por exemplo. Não se pode isolar essa hipótese do resto do seu discurso, onde propõem modos de tornar essa redução o mais pequena e o mais justa possível. Para quem esteja atento e informado, não se trata, nem nunca se tratou, de fugir a sacrifícios mas de não os fazer em vão, de os repartir com justiça, de, no final, ficar com uma sociedade e uma economia com mais igualdade.

Ora, para a esquerda, a estratégia usada pelo governo não tem sido nem justa nem equitativa, concentrando os sacrifícios nas classes média e baixa, penalizando mais os trabalhadores do que os patrões, castigando antes de mais o Estado e quem trabalha para ele, eliminando serviços públicos, saúde, ensino, segurança social, e assumindo o desemprego como estrutural – apenas evitável através da eliminação geral de direitos. A narrativa usada como justificação para esta estratégia é também simplista e irresponsável, atribuindo a culpa da crise a uma falha moral do cidadão comum, omitindo possíveis causas ao nível internacional e isolando-nos também de possíveis soluções comuns.

Como estratégia, tem sido uma catástrofe, porque não funciona e porque faz vítimas. Só pode ser considerada equitativa e justa se o significado dessas palavras for completamente distinto daquele que lhe dão a grande maioria das pessoas. Outras expressões que se arriscam também a mudar radicalmente de sentido: serviço público, estado social e (é claro) democracia.

Este ultimo termo é, por definição, discutível. Afinal, a democracia é o governo através da discussão pública. Essa discussão é sempre, de um modo ou outro, sobre representatividade. Cada medida, cada lei, cada decisão é sempre sobre inclusão ou exclusão, seja em termos de direitos, impostos, financiamentos, etc. Para quem acredita que mercado e democracia são sinónimos, esta discussão política parecerá artificial e até nociva, porque se substitui à pureza do mercado. Mas enquanto a democracia de Estado inclui todos os habitantes de um país (por exemplo), sem fazer distinções entre eles (cada pessoa um voto), na democracia de mercado o voto é ponderado pelo valor económico. Contam mais as decisões de quem tem mais dinheiro. E quem tem menos dinheiro terá todo o incentivo para vender coisas como o corpo, a ética, a família, a fé, o que quer que seja.

Pessoalmente acredito que há coisas que não deveriam estar à venda – um ponto de vista que provavelmente fará de mim um radical aos olhos de muita gente, um perigoso anticapitalista. Mas achar que o capitalismo deve ter limites não implica ser anticapitalista, tal como defender a reestruturação não é ser caloteiro. Ou que não concordar é o mesmo que não perceber – o que não é de todo uma maneira mais delicada de chamar idiota a alguém.

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Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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