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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Futuro das Artes Está No Porto

Querem saber como vão ser os próximos anos da cultura aqui em Portugal? Olhem para o Porto na última década. É a segunda cidade do país, empobrecida e periférica. Preterida pela televisão e pelos jornais, apontados quase sempre a Lisboa. Teve um momento de abundância com o Porto 2001, uma dinâmica sustentada por uma geração inteira de artistas plásticos locais, que se aguentaram precariamente, consolidados numa cena frágil durante mais meia dúzia de anos, depois da Capital da Cultura acabar e de Rui Rio chegar a presidente da câmara, ironizando que quando ouvia falar de cultura puxava logo do livro de cheques.

No final, esta cena incipiente não se extinguiu propriamente – dissolveu-se. Há quem diga que desapareceu por falta de apoios ou de visibilidade, o que não convence muito: acabou precisamente na altura em que grandes instituições como Serralves lhe dedicavam alguma atenção (pagando o catálogo do Salão Olímpico, por exemplo). Desintegrou-se porque não havia grande incentivo a que os criadores se comportassem como um colectivo, esquecendo as suas discordâncias em nome de um fim comum. Enquanto houve algum interesse da crítica e da curadoria em tratar a cena como um movimento, houve coesão, a bem ou a mal. Acabado o interesse, a cena desmembrou-se e foi vendida à peça. Cada espaço, cada colectividade, desfez-se em artistas individuais. Mas não foi um fim, claro. Continuam a haver espaços e iniciativas semelhantes no Porto. Mais até do que na altura.

Na verdade, e esquecendo as ambições de uma carreira nas artes, a cena artística do Porto foi apenas o começo de uma certa dinâmica urbana que se generalizou: pequenos espaços e eventos onde se comia, bebia, via arte, ouvia música, enquanto se saía à noite com os amigos.

Na década passada o Porto ganhou movimento com o aeroporto e as low cost. Tornou-se cosmopolita mas não exclusivo. Dedicou-se a um turismo barato e impulsivo, que se confunde com a população flutuante das universidades, uma espécie de Erasmus civil que vai aos mesmos sítios, ouve a mesma música, tem os mesmos gostos do estudante de intercâmbio. A cultura que funciona melhor neste ambiente é a que não depende da língua: som, imagem mas sobretudo corpo, no sentido de comer, beber e dançar. Os espaços e os eventos que sobrevivem melhor aqui são os que fornecem tudo isto numa base regular, quotidiana (o turismo barato não se desloca tanto para ir ver eventos específicos, que tornam a viagem e a estadia mais caros). São restaurantes, bares, mas também galerias e espaços de concertos, abertos para a rua e não muito longe do centro (para quem vem num avião, isso é importante). Pequenos eventos, pequenos espaços, que se tornam estruturalmente polivalentes. Negócios que, por uma questão de poupança acumulam valências. Surgem também modelos de sincronização no tempo, como as inaugurações simultâneas, um fenómeno que começou com as galerias da Miguel Bombarda, mas que se estendeu aos alfarrabistas, por exemplo. Neste ambiente, os formatos culturais mais bem sucedidos são a comida e a música. Nas artes visuais, vingam formatos mais decorativos: a ilustração, a publicação, o mobiliário, a roupa, mais do que as artes de galeria, fora do alcance do bolso comum e muito menos portáteis (tudo o que não couber numa mochila).

Este turismo barato e impulsivo desloca-se de modos que em outras décadas pareceriam estranhos. Viaja-se, trabalha-se e estuda-se no mesmo momento, sem distinção, não exactamente pela qualidade das instituições ou do trabalho mas sobretudo do local e da sua experiência. É uma mobilidade que começa na universidade (com os vários intercâmbios disponíveis) e mais tarde se legitima no formato da residência artística. A residência assenta na mesma logística que fornece o turismo low cost, torna-se até certo ponto indistinguível dele. É uma indefinição crucial: dizer mobilidade é dizer precariedade. E a lógica por detrás das residências confirma-o: é mais barato fazer deslocar um artista do que a sua obra. Prefere-se dar cama, comida, logística e matéria prima, do que um salário ou um fee. Talvez seja esta também  uma das razões de ser para a ascensão do comissário itinerante: no fundo, um artista-dj, cuja obra consiste em remisturar obras alheias e acervos.

É tudo bastante dinâmico sobretudo porque não tem alternativa senão sê-lo. Só é possível fixar gente numa cidade se houver condições para isso. No Porto, essas condições passavam por um segundo emprego, a dar aulas (se possível no ensino superior), ou a trabalhar para uma das grandes instituições culturais, serviços educativos, visitas guiadas, montagem de exposições, etc. Com a redução de financiamento do ensino superior e o corte nas fundações, associado ao aumento de responsabilidades de quem ainda vai mantendo o emprego, calculo que a cena cultural do Porto vá sofrer também um corte indirecto.

O que existe são grandes instituições públicas, privadas ou a meio caminho, dirigidas sobretudo para um circuito internacional profissional de críticos, curadores e artistas, e um caso ou outro de consagração retrospectiva de uma ou outra carreira nacional. À volta disso, como relva miúda, os tais espaços e eventos de pequena escala, quase sempre aguentando-se com financiamentos indirectos, desde um segundo emprego, um segundo negócio, até apoios que quase, quase se adequam tematicamente – e nunca, nunca chegam para cobrir os custos. O que falta ficaria no espaço entre as grandes e as pequenas estruturas, uma espécie de classe média – o que não é de todo uma metáfora. Em Lisboa, ainda têm aparecido essas estruturas: a Zé dos Bois é um exemplo bem sucedido; o Oporto, idem. Se calhar estou a ser injusto, mas no Porto nenhuma pequena estrutura se aguentou o suficiente para chegar a um nível intermédio.

Será isso o futuro, muito provavelmente (até certo ponto, já é o presente): também nas artes, a crise isolará meia dúzia de oisas grandes rodeadas por uma maré rasa de cultura efémera, cada vez mais invisível à crítica, cada vez mais local, excepto nos sítios onde o bairro também tenha uma televisão ou um jornal de referência.

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Filed under: Arte, Comissariado, Crítica, Cultura, curadoria, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

5 Responses

  1. […] Há umas semanas, dizia eu que para se perceber o futuro das artes em Portugal era uma boa ideia olhar para a cena do Porto durante a última década, uma economia cultural abandonada – pelos financiamentos, pelos media, pelas grandes instituições – e que encontrou uma identidade e uma saída a produzir dentro do contexto da viagem low-cost, que lhe traz um público de turistas internacionais, mas permite também a circulação de objectos e artistas. Neste contexto, percebe-se bem como a música, a comida, a roupa e a ilustração, formatos portáteis por excelência ganham protagonistas. O melhor exemplo será talvez o livro de ilustração: pequeno, cabe numa mochila, agrada a crianças mas também a adultos, incluindo aqueles que não falam bem a língua. […]

  2. […] as discussões em torno da cena alternativa do Porto há mais de meia dúzia de anos, o caso Axa, a turistificação do Porto e a sua relação com a cena alternativa, […]

  3. […] ao vivo e na net sobre a cena alternativa do Porto, que na altura estava prestes a desfazer-se em artistas individuais. Essencialmente e para resumir muito, reivindicava-se mais atenção para os artistas locais. Não […]

  4. […] as discussões em torno da cena alternativa do Porto há mais de meia dúzia de anos, o caso Axa, a turistificação do Porto e a sua relação com a cena alternativa, […]

  5. […] há dois anos que “o futuro das artes estava no Porto”. Queria dizer com isso que o modo precário e desigual com que a cultura foi praticada e […]

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